terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Sobre fendas, vãos, lacunas e frestas

 “


Há uma rachadura em tudo e por aí que a luz entra”.  ((Leonardo Cohen) 

          Parte de mim é fenda. Memórias desenfreadas jorrando.

           Parte de mim é vão. Do que poderia ter sido, mas não foi . 

            Parte de mim é lacuna. Espaço não preenchido porque  foi e sempre será seu.

            Parte de mim é fresta. Espia  a “ luz no fim do túnel “. 

             Todo meu ser : fendas, vãos , lacunas e frestas. Pontos de luz .


Este texto foi inspirado na oficina de escrita, da Tainá Saez e Layse Barnabé, sobre frestas do fim de ano. Vi o vídeo muito depois. Acabei fazendo um paralelo  com o luto. Da lacuna que a morte do meu filho deixou. E das frestas que possibilitam prosseguir. A” luz no fim do túnel “ que permite vislumbrar uma continuidade. Esta é a minha homenagem nesse dia 17 .

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

23 anos


               Pensei que nesse aniversário, ainda tenho mais tempo com você do que sem. Estaria fazendo 23 anos nessa existência. No próximo, o tempo quase se igualaria. E depois, mais tempo no além do que aqui. Juntinho.

            Sim, penso e quero acreditar que está bem. Feliz, ou mais feliz na eternidade. 

           Como diz a amiga Adma, as pessoas de Deus são alegres. Você era alegre por aqui. O mal humor só chegava com sono ou fome, como exceções. Ou a impaciência quando a mãe conversava muito com as amigas ( reconhece Valentina?). Tinha uma disposição para brincar, movimentar-se. Intenso, como se não pudesse perder tempo. Parecia saber que o seu tempo aqui seria breve ( será ? ). Extremamente observador, como se processasse informações variadas. Carinhoso e paciente com crianças menores e animais. Adorava massagem nos pés.  E tinha muitas cócegas. Uma risada deliciosa … e um sorriso. Ah o sorriso … dizia muito de você. Maroto, às vezes meio irônico. 

        Já são dez anos sem esse sorriso que sempre me encantou. Esses olhos atentos. A mãozinha fofinha.  E muito cabelo. 

         Nessas datas, em especial os aniversários de nascimento e de morte, mesmo tendo passado algum tempo, as recordações, saudades e dores vem mais intensas. Impossível não sorrir e chorar ao mesmo tempo, com as lembranças. Impossível não se perguntar como estaria e o que estaria fazendo, se estivesse por aqui. Impossível não se perguntar o porquê dos acontecimentos, mesmo sem respostas .

          Ah filho, a saudade me abraça nesses dias. Fico mais sensível. Mais chorona. E muitas vezes, depois vou me dar conta. Que às vezes é a saudade sufocando. Nas palavras não ditas, nos sentimentos não expressos, na empatia não encontrada. 

          No entanto, você vive em mim. E viverá para sempre. Mesmo estando “ do outro lado do caminho”. Ainda assim, hoje é o seu aniversário terreno. 23 anos atrás, chegou para nos contemplar com a sua linda e curta existência por aqui.  Infelizmente, hoje não tem bolo, nem vela para celebrar. Apenas um misto de saudade, tristeza e gratidão.