sábado, 29 de agosto de 2026

Cada dia uma lembrança

             Cada dia, até o dia 17, traz uma lembrança.
             Do dia em que passou mal na casa do amigo. Da última vez que dormiu em casa. Da consulta fatídica e do diagnóstico. Da internação no Hospital Infantil para drenar o líquido, a primeira cirurgia. Da segunda cirurgia, para colocar a válvula. Da transferência de helicóptero para Curitiba, com temperatura gelada. Da última conversa que tivemos, ele já sonolento. Da ansiedade e da preocupação torturante na sala de espera, de uma cirurgia de mais de 17 horas, com biópsia inconclusiva. Da angústia do coma induzido e da expectativa do retorno que não aconteceu. Da delicadeza de um médico e da crueldade de outro, ao comunicar a gravidade do caso. Da mudança de rotina no dia do feriado de 7 de setembro. Do teste da morte cerebral que demorou a ser conclusivo. Da frieza da médica que desligou os aparelhos na minha frente, motivo, não por queixa minha, de reunião disciplinar. E do coração valente, que teimosamente funcionou por dois dias e parou de bater na minha frente.
              Já são 11 anos e eu me recordo de cada detalhe. De cada sentimento. Se eu viver mais de 100 anos, lembrarei. E ainda dói. Ferida cicatrizada que, nessas datas, se rompe. Talvez porque pulse mais intensamente. E rasga.
             Milhões de pensamentos: tristeza, revolta, gratidão, saudade, possibilidades…
Difícil até nomear cada um deles.
            Nessas datas, da dor não tem como fugir. Não existe lugar onde ela não se encontre, pois mora dentro de mim.
           Quem me conhece sabe que não sou só dor. Sou grata por todos os momentos felizes e lindos que tivemos. Grata pela minha família e pelos meus amigos, que me motivam a seguir em frente e que me deram e me dão o colo de que preciso, quando preciso. Grata a Deus por ter me feito sobreviver, pois as mães que passam por isso são, acima de tudo, sobreviventes, e que me faz viver.
        No entanto, sei, por todo esse tempo que passou, que neste momento é assim: emergir, e não fugir dos sentimentos. Para ganhar fôlego, impulso e poder seguir em frente. Em paz.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Dia de paradoxos


   


             Hoje, minha filha dorme em casa, de mudança, após 6 anos morando fora. Hoje, exatamente, faz 11 anos que meu filho dormiu nesta casa pela última vez. A vida é cheia de ironias e paradoxos.

         Em meio a tanta alegria da formatura da  filha, à sensação de cumprimento de uma etapa e às homenagens emocionantes, vem a lembrança de que, nesta mesma data, ele havia passado mal. Infelizmente, todas essas datas ficam gravadas em nossa memória e em nosso coração. E elas pulsam, mesmo que involuntariamente, mesmo em meio a emoções gratificantes e alegres.

         Voltar para casa com as orquídeas floridas e os rabinhos de helicóptero nos recebendo é muito bom. Voltar para casa e lembrar que ainda o tinha comigo neste plano, aqui, há 11 anos, nem tanto.

          Se pudesse voltar no tempo... se pudesse congelar alguns momentos e pular outros. Infelizmente, máquina do tempo existe apenas no pensamento. Ou na imaginação, distante da realidade.


domingo, 16 de agosto de 2026

Tristeza



“E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constitui vosso deleite. Alguns dentre vós dizeis: ‘a alegria é maior que a tristeza’, e outros dizem: ‘não, a tristeza é maior’. Eu, porém, vos digo que elas são inseparáveis.” — _Khalil Gibran, O Profeta_


Reler esse trecho me fez refletir sobre a tristeza.


No luto, ficamos tristes por não termos a alegria que compartilhamos com os nossos amados. E a intensidade do luto e da tristeza é condizente com o amor e a alegria vivida.


Ah, o amor. Traz-nos alegrias incomparáveis e a tristeza de não tê-lo. Uma saudade indizível que nem sabemos como descrever. Mistura de sentimentos. Até mesmo do que não vivemos. Dos planos que tínhamos juntos e não se concretizaram, com a ruptura abrupta. Mais repentina do que a de um filho saudável que parte tão rapidamente, sem aviso prévio?


A tristeza não é para amadores; é para os fortes. Como cita a Dra. Ana Claudia Quintana Arantes em seu livro _Pra vida toda valer a pena viver_.


Mergulhar na tristeza — e sair dela — permite nosso entendimento do porquê ela estar aqui, quais nossos sentimentos e emoções.

Deixar ela vir ajuda a compreender muitos fatos. Inclusive como foi incrível tudo que vivemos ao lado da pessoa que partiu. E deixar que a alegria volte. Se não da mesma maneira e intensidade, mas que retorne 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Para Amanda

     


       Fomos ao mesmo café da primeira vez, quando da sua mudança. Conhecer  a veterana que havia lhe adotado e dado as dicas de Uberaba.

       Ah, quantos sentimentos misturados.

       Desmontando o apartamento, minha natureza emocionada fica com dó até mesmo de deixar alguns objetos desgastados pelo uso, mas escolhidos com tanto carinho. Você e o seu pai, mais pragmáticos, acabam vencendo.

      Olhar para a mesa, já negociada, fez me recordar que ela foi o que motivou a amizade com pessoas especiais, nessa sua trajetória uberabense.

       Por isso, para mim, um objeto não é só objeto. Conta histórias. Traz lembranças, até do que um dia fomos. Ou de quem fomos.

       Penso no tempo transcorrido. Chegamos numa época pré-pandemia. E passamos por ela nesse período. Paramos no mesmo lugar, onde tivemos que viajar cheios de máscaras. 

Mal imaginávamos tudo que viria. Em nossas vidas e em todas as vidas.

        Não somos os mesmos que adentramos, pela última vez, pela garagem, chegando de Londrina. O  seu apartamento em Uberaba, também um pouquinho nosso, que deixa de existir. 

        O som do galo cantando e os sinos dobrando às 6h da manhã, embora em pleno centro urbano. Da pequena sacada, a vista da torre da basílica e um pôr do sol privilegiado. Dos latidos agudos do Theo. Da proximidade com o mercado municipal, de tantas delícias. 

         Chegou uma adolescente e transformou-se numa mulher. Embora dolorida essa mudança de casa, a falta da presença física e toda a saudade envolvida, hoje enxergo o quanto cresceu.

         Simultaneamente, no filme que rebobino na minha cabeça, lembro do bebê fofinho, da menina esperta que dizia frases engraçadas, da adolescente que gostava das músicas da Manu Gavassi e de devorar livros de trilogias diversas, da jovem insegura com o que iria encontrar.

       Hoje surge a Amanda profissional, que há muito vem sendo formada. Pelos estudos, pela dedicação e, principalmente, pela empatia e pelo caráter envolvidos. Pois, antes do profissional, vem o humano. E sabemos da pessoa que você é.

        Emoções duais: do dever cumprido como pais; e da filha criança, que vem partindo há muito tempo, fechando uma porta para outras se abrirem. Com todo um horizonte a ser desbravado.

        Por isso, os dizeres da sua faixa foram mais que condizentes: “ O diploma é seu, o orgulho é nosso “.

sábado, 8 de agosto de 2026

Dia dos pais


“Nasci para amar meu filho, 
Isso não me diminui; 

salva-me.

O resto existe. 

É bom, é importante.

Mas amar é a única forma 

de identidade verdadeira. 

A vida vale sobretudo 

pelo que sinto quando 

lhe seguro a mão. “


Benjamin 

e os dias cheios de nada .

( Pedro Chagas Freitas )

         

         Lendo a poesia do Pedro Chagas Freitas acima, fiquei a pensar no Dia dos Pais. E os pais que não têm  mais mãos para segurar? 

          Certa vez, um amigo me questionou: e a dor do pai que perdeu um filho? Nós também sentimos.

          Ao que respondi: eu posso falar do lado mãe, do feminino. Da vivência que tenho como mãe que perdeu um filho.

          No entanto, vejo a dor nos olhos do meu marido. A dor silenciada, sem palavras. Tentando manter a fortaleza nos momentos mais difíceis, e nos posteriores, para seguir em frente. A consciência de que a vida não será a mesma, como não tem sido. E que, mesmo sem expressar, sente que o Dia dos Pais não é igual, pois o filho amado não está aqui. E não deve fazê-lo, pois a filha amada está. Dualidade de sentimentos.

         O que posso dizer disso tudo: você foi, e é, o melhor pai que os nossos filhos poderiam ter tido.  

        Feliz Dia dos Pais. Estendendo uma mão presente e outra, com laços no infinito. Sempre.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Sorria

 

        Outro dia escutei a música Sorri, com o Djavan — versão de Smile, do Charles Chaplin.  

        Lembrei da original e da cena de Tempos Modernos, com essa música ao fundo, em meio a personagens que buscam recomeçar a vida.

         Penso que ela nos remete ao processo do luto.  

          E quando temos o coração partido, arrancado do peito, e mesmo assim, às vezes, tentamos sorrir.

           E, ilusoriamente, o mundo pode "supor a felicidade", como diz  a versão cantada por Djavan.  

           Ou "embora uma lágrima possa estar tão próxima, é o tempo que você tem que continuar tentando", ao sorrir, como diz a letra original.

           Quantas vezes disfarçamos, tentando sorrir?  

           Ah, como dói o luto.

           Quem sabe, sorrindo, possamos ver o sol.  

           Se não brilhando, aquecendo nossos corações tão machucados.



Letra da versão brasileira de Smile 

Sorri

Quando a dor te torturar

E a saudade atormentar

Os teus dias tristonhos, vazios

Sorri

Quanto tudo terminar

Quando nada mais restar

Do teu sonho encantador

Sorri

Quando o Sol perder a luz

E sentires uma cruz

Nos teus ombros cansados, doridos

Sorri

Vai mentindo a tua dor

E ao notar que tu sorries

Todo mundo irá supor

Que és feliz...

Sorri

Vai mentindo a tua dor

E ao notar que tu sorries

Todo mundo irá supor

Que és feliz

Smile

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Sem reprises


 “A vida não garante reprises; se algo é importante para você, não adie - faça enquanto é tempo” 

Recebi dia destes de um amigo. Fiquei pensando no que gostaria de ter feito com o João Pedro e não fizemos. 


Ele não foi a um jogo do Corinthians, no Itaquerão. Achamos que teria muito tempo para ir. Nem  mesmo da seleção brasileira, ou da Copa, aqui no Brasil que não conseguimos comprar os ingressos.


Ele queria ver a neve e não teve oportunidade. Iríamos para o Chile com uns amigos e acabou não realizando, no ano  em que faleceu .


Queria conhecer o rio Amazonas. E falava: “ Um dia  a gente vai  para lá”. Só que esse dia não chegou. 


Esses são alguns dos desejos que lembro. Se soubéssemos de tudo que viria, talvez esses passeios teriam se realizado.


Ele gostava de U2 e Coldplay, mesmo com a pouca idade. Quando vieram para o Brasil fiquei pensando se ele não estaria indo ao show. Mas isso já fruto da imaginação. Do “ e se “ que maltrata e é irreal.


O que temos nessa vida é somente o hoje. O futuro, como dizem, a Deus pertence. A astronave “impilotável”, que sem pedir licença, tudo muda. Numa fração de segundo.