quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Para D. Idalina

 

“ O que é meu, é só meu, nunca ninguém vai entender”.

       Ela disse baixinho, quase como quem reza. Uma senhora de sabedoria inteira, passando pelo difícil momento da saúde frágil de seu marido, seu companheiro há 75 anos.

         75 anos de braços dados com alguém. 75 invernos, 75 verões, contas pagas, filhos criados, netos, bisnetos, brigas, reconciliações, silêncios que apenas eles entendem. Como alguém haveria de entender por inteiro? Uma vida inteira construída a quatro mãos. 

          Ela, uma mulher de fé. Crê, com toda força, na vida após a morte. No entanto, lúcida, tem plena consciência do agora. Da despedida possível. Da cadeira que pode ficar vazia. 

           A fé consola, mas não apaga a falta que pode fazer uma mão que segura há 75 anos. Não 75 dias, nem 75 horas. 

          Sim, cada um sabe o que sente.  Cada um sabe “a dor e a delícia de ser o que é“. Cada relação é única, porque as pessoas também o são. Por isso os sentimentos são diversos. Por isso o luto - que às vezes chega em vida - tem tantas formas de doer.

         Se soubéssemos o que se passa no coração e na mente das pessoas, talvez fôssemos mais empáticos. Ainda que a dor seja sua e a minha dor, exclusivamente minha.

Ps : Assim que enviei o texto para a sua neta veio a notícia do falecimento do Sr. Oswaldo ( com W), deixando-nos com o rosto sereno. Que esse pequeno texto possa acalmar um pouco o coração de D. Idalina, como os três beijos de despedida, na esperança do reencontro. E que Deus abençoe a missão que ainda tem por aqui, com a linda família que construíram. 

sábado, 17 de outubro de 2026

Gatilhos


      


      
          A sirene de uma ambulância  passou apressadamente por mim. Vieram lembranças de imediato. 

        Uma vez, andei de ambulância. João Pedro, já internado iria fazer exames em outro lugar. Foi transportado de ambulância, com um médico o acompanhando. O médico me perguntou o que ele tinha e me olhou com ar de piedade.

        O motorista, tentando animar meu filho, que parecia mais novo que seus 12 anos, falou em ligar a sirene para passar todos os carros, mostrando como seria legal. 

        E assim,  cada um do seu jeito, foi empático. 

        E assim, fizemos o nosso passeio de ambulância. 

        E assim, sirene de ambulância traz lembranças e gatilhos . 

        E assim, chorei sozinha no carro. 

domingo, 27 de setembro de 2026

Testemunha

              
            
            
         Dividimos cotidiano, poesia e sonhos com um amigo de vida inteira, uma mãe, um pai, uma irmã, um filho, uma filha que cresceu e foi, alguém que partiu. É a cumplicidade diária que falta. É aquele "olha o que eu vi hoje" que não tem mais para quem mandar, o "lembrei de você" que fica guardado só em você, a piada interna que perde a graça. É o sonho desfeito daquela viagem, daqueles planos, do que um dia iria se realizar.
            É sobre perder uma testemunha da sua vida, perder uma vida inteira a acompanhar. São muitos lutos dentro do luto.
             E quando a pessoa decide acabar com a própria vida, fica o questionamento: será que poderíamos ter feito algo para impedir? Será que algo passou despercebido? Até conformamos com a nossa humana impotência e entregamos ao Divino o que não está ao nosso alcance. Que esteja em nossas orações.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Carta de onze anos



Meu filho amado,

               Já são onze anos sem você neste plano. Mas nenhum dia sequer deixou de estar comigo. Guardo você, e todas as nossas lembranças, num recanto do coração que sempre foi, e sempre será, seu.

                Você faz tanta falta por aqui. Sua alegria contagiante, seu sorriso, seu humor irreverente, seu som que preenchia a nossa casa. Soam agora como melodias incompletas. Tal como a Sinfonia Inacabada de Schubert, faltante em sua estrutura tradicional, artisticamente perfeita.

              Gostaria de contar tudo que aconteceu neste tempo de ausência presente, de presença fisicamente ausente.

Da formatura da sua irmã, do envelhecimento dos seus avós, da Vívian namorando e na faculdade, dos nossos passeios, do futebol que não veria o Brasil ganhar a Copa, do álbum de figurinhas que não foi feito pela primeira vez este ano aqui em casa. Dos priminhos, filhos do Ju e da Tha, que chegaram, do Vi que está em Hong Kong, da Bel que se formou, bem como a maioria dos seus amigos. E tantos outros acontecimentos que eu esqueceria muitos.

            Mas sinto que, de onde estiver, sempre nos acompanha. E em cada alegria, vibra conosco. E em cada preocupação e tristeza, nos acalenta.

            Ainda assim, em datas como essa, é impossível não sentir a saudade que esmaga meu peito. E a dor que dela advém. Saudade de tudo que vivemos e deixamos de viver.

             Sim, sei que quer me ver bem. Mas negar esse sentimento seria negar a mim mesma. Sabe que ressignifiquei a vida para poder sobreviver, sem você por aqui. Para aprender a viver, sem você, amputado de mim. Arrancado tão bruscamente do nosso convívio.

              Ao contrário do que diz a música, o silêncio existe porque houve som. A escuridão existe porque houve luz.

             Mas tudo que eu escrevesse não seria suficiente para expressar o que gostaria. Não cabem tantos sentimentos que nem sei nomear.

              Sigo calada ou escrevendo, nesta sinfonia inacabada de silêncios e de luz. Encontrando onde ficar.

               E você segue na luz. Refletindo toda a luminosidade que espalhou por aqui, em seu breve tempo terreno. Marcando eternamente nossos corações.

              Com o coração pleno de saudade, amo-o para todo e sempre,


Sua mãe

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Entre 15 e 17


    

  Foi em um dia 15 de setembro que recebi a notícia da morte cerebral do meu filho. No dia 17, o coração parou. E o meu parou junto.

    Escrevi esse poema sobre esses dias .

Entorpecida

Paralisada 

Enevoada 

Dias viventes 

Simplesmente 

Sobreviventes.


sábado, 12 de setembro de 2026

Ilusão


Quero a leveza dos dias felizes,

Dos dias encantados pelo sorriso fácil,

Das conversas bobas,

De correr atrás do meu filho, provocativo ao dizer que não o pegaria,

De tantas cócegas até "pedir água",

De escutar que me amava muito, muito, muito até o infinito,

De escondido bisbilhotar o que conversava com a irmã,

Do leva e traz cantante entre idas e voltas para a escola,

Da torcida nos jogos de bola,

De ganhar bolachinhas e presentinhos no dia das mães,

Das apresentações de piano,

Das danças das festas juninas,

Dos inúmeros amigos que frequentavam essa casa,

Do barulho do videogame,

Da demora do banho cercado de inúmeros brinquedos,

Dos almoços na casa da avó,

Da cumplicidade com a Vívian provocando a Amanda,

Dos jogos com os primos,

Incontáveis e inumeráveis momentos.

Iludida, penso:

Quem sabe, profetizando, não os traga de volta?

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Sobrevivência

         


       Por mais que eu queira a leveza, hoje é tempo de intensidade. Da dor intensa. Do último dia em que o vi reagindo consciente, quando passou rapidamente por nós, rumo à sala de cirurgia.

        Da ansiedade, que não sei como controlei, do aguardo por mais de 16h na sala de espera. Apenas nós ali. Acabaram as cirurgias da manhã, as da tarde, as da noite. E esperando... mais de meia-noite. Com a resposta de que a biópsia havia sido inconclusiva (dando falsas esperanças).

        Depois soubemos que houve uma parada cardíaca, antes mesmo do início.

         Não sei como sobrevivi. Sei que precisava ser forte para ficar ao lado dele. Ele precisava de mim.

          Entendo quando dizem que as mães que perderam seus filhos são sobreviventes.

          Quando a Cissa Guimarães fala que somos "mulheres amputadas", que não seremos mais 100% felizes.

           Mas podemos ser 80, 70, por cento, sei lá, felizes. Para honrar quem partiu e por nós mesmos.

           Busco isso, nem sempre é fácil. Para nós, é mais difícil. Mas quem sobreviveu a essa dor, a maior do mundo, tem uma força descomunal. É que às vezes cansamos. Precisamos de colo. E, principalmente, de nos darmos colo. Ombrearmos com quem nos faz bem e com o que nos faz bem. Autocuidado. Sobrevivência.