domingo, 16 de agosto de 2026

Tristeza



“E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constitui vosso deleite. Alguns dentre vós dizeis: ‘a alegria é maior que a tristeza’, e outros dizem: ‘não, a tristeza é maior’. Eu, porém, vos digo que elas são inseparáveis.” — _Khalil Gibran, O Profeta_


Reler esse trecho me fez refletir sobre a tristeza.


No luto, ficamos tristes por não termos a alegria que compartilhamos com os nossos amados. E a intensidade do luto e da tristeza é condizente com o amor e a alegria vivida.


Ah, o amor. Traz-nos alegrias incomparáveis e a tristeza de não tê-lo. Uma saudade indizível que nem sabemos como descrever. Mistura de sentimentos. Até mesmo do que não vivemos. Dos planos que tínhamos juntos e não se concretizaram, com a ruptura abrupta. Mais repentina do que a de um filho saudável que parte tão rapidamente, sem aviso prévio?


A tristeza não é para amadores; é para os fortes. Como cita a Dra. Ana Claudia Quintana Arantes em seu livro _Pra vida toda valer a pena viver_.


Mergulhar na tristeza — e sair dela — permite nosso entendimento do porquê ela estar aqui, quais nossos sentimentos e emoções.

Deixar ela vir ajuda a compreender muitos fatos. Inclusive como foi incrível tudo que vivemos ao lado da pessoa que partiu. E deixar que a alegria volte. Se não da mesma maneira e intensidade, mas que retorne 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Para Amanda

     


       Fomos ao mesmo café da primeira vez, quando da sua mudança. Conhecer  a veterana que havia lhe adotado e dado as dicas de Uberaba.

       Ah, quantos sentimentos misturados.

       Desmontando o apartamento, minha natureza emocionada fica com dó até mesmo de deixar alguns objetos desgastados pelo uso, mas escolhidos com tanto carinho. Você e o seu pai, mais pragmáticos, acabam vencendo.

      Olhar para a mesa, já negociada, fez me recordar que ela foi o que motivou a amizade com pessoas especiais, nessa sua trajetória uberabense.

       Por isso, para mim, um objeto não é só objeto. Conta histórias. Traz lembranças, até do que um dia fomos. Ou de quem fomos.

       Penso no tempo transcorrido. Chegamos numa época pré-pandemia. E passamos por ela nesse período. Paramos no mesmo lugar, onde tivemos que viajar cheios de máscaras. 

Mal imaginávamos tudo que viria. Em nossas vidas e em todas as vidas.

        Não somos os mesmos que adentramos, pela última vez, pela garagem, chegando de Londrina. O  seu apartamento em Uberaba, também um pouquinho nosso, que deixa de existir. 

        O som do galo cantando e os sinos dobrando às 6h da manhã, embora em pleno centro urbano. Da pequena sacada, a vista da torre da basílica e um pôr do sol privilegiado. Dos latidos agudos do Theo. Da proximidade com o mercado municipal, de tantas delícias. 

         Chegou uma adolescente e transformou-se numa mulher. Embora dolorida essa mudança de casa, a falta da presença física e toda a saudade envolvida, hoje enxergo o quanto cresceu.

         Simultaneamente, no filme que rebobino na minha cabeça, lembro do bebê fofinho, da menina esperta que dizia frases engraçadas, da adolescente que gostava das músicas da Manu Gavassi e de devorar livros de trilogias diversas, da jovem insegura com o que iria encontrar.

       Hoje surge a Amanda profissional, que há muito vem sendo formada. Pelos estudos, pela dedicação e, principalmente, pela empatia e pelo caráter envolvidos. Pois, antes do profissional, vem o humano. E sabemos da pessoa que você é.

        Emoções duais: do dever cumprido como pais; e da filha criança, que vem partindo há muito tempo, fechando uma porta para outras se abrirem. Com todo um horizonte a ser desbravado.

        Por isso, os dizeres da sua faixa foram mais que condizentes: “ O diploma é seu, o orgulho é nosso “.

sábado, 8 de agosto de 2026

Dia dos pais


“Nasci para amar meu filho, 
Isso não me diminui; 

salva-me.

O resto existe. 

É bom, é importante.

Mas amar é a única forma 

de identidade verdadeira. 

A vida vale sobretudo 

pelo que sinto quando 

lhe seguro a mão. “


Benjamin 

e os dias cheios de nada .

( Pedro Chagas Freitas )

         

         Lendo a poesia do Pedro Chagas Freitas acima, fiquei a pensar no Dia dos Pais. E os pais que não têm  mais mãos para segurar? 

          Certa vez, um amigo me questionou: e a dor do pai que perdeu um filho? Nós também sentimos.

          Ao que respondi: eu posso falar do lado mãe, do feminino. Da vivência que tenho como mãe que perdeu um filho.

          No entanto, vejo a dor nos olhos do meu marido. A dor silenciada, sem palavras. Tentando manter a fortaleza nos momentos mais difíceis, e nos posteriores, para seguir em frente. A consciência de que a vida não será a mesma, como não tem sido. E que, mesmo sem expressar, sente que o Dia dos Pais não é igual, pois o filho amado não está aqui. E não deve fazê-lo, pois a filha amada está. Dualidade de sentimentos.

         O que posso dizer disso tudo: você foi, e é, o melhor pai que os nossos filhos poderiam ter tido.  

        Feliz Dia dos Pais. Estendendo uma mão presente e outra, com laços no infinito. Sempre.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Sorria

 

        Outro dia escutei a música Sorri, com o Djavan — versão de Smile, do Charles Chaplin.  

        Lembrei da original e da cena de Tempos Modernos, com essa música ao fundo, em meio a personagens que buscam recomeçar a vida.

         Penso que ela nos remete ao processo do luto.  

          E quando temos o coração partido, arrancado do peito, e mesmo assim, às vezes, tentamos sorrir.

           E, ilusoriamente, o mundo pode "supor a felicidade", como diz  a versão cantada por Djavan.  

           Ou "embora uma lágrima possa estar tão próxima, é o tempo que você tem que continuar tentando", ao sorrir, como diz a letra original.

           Quantas vezes disfarçamos, tentando sorrir?  

           Ah, como dói o luto.

           Quem sabe, sorrindo, possamos ver o sol.  

           Se não brilhando, aquecendo nossos corações tão machucados.



Letra da versão brasileira de Smile 

Sorri

Quando a dor te torturar

E a saudade atormentar

Os teus dias tristonhos, vazios

Sorri

Quanto tudo terminar

Quando nada mais restar

Do teu sonho encantador

Sorri

Quando o Sol perder a luz

E sentires uma cruz

Nos teus ombros cansados, doridos

Sorri

Vai mentindo a tua dor

E ao notar que tu sorries

Todo mundo irá supor

Que és feliz...

Sorri

Vai mentindo a tua dor

E ao notar que tu sorries

Todo mundo irá supor

Que és feliz

Smile

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Sem reprises


 “A vida não garante reprises; se algo é importante para você, não adie - faça enquanto é tempo” 

Recebi dia destes de um amigo. Fiquei pensando no que gostaria de ter feito com o João Pedro e não fizemos. 


Ele não foi a um jogo do Corinthians, no Itaquerão. Achamos que teria muito tempo para ir. Nem  mesmo da seleção brasileira, ou da Copa, aqui no Brasil que não conseguimos comprar os ingressos.


Ele queria ver a neve e não teve oportunidade. Iríamos para o Chile com uns amigos e acabou não realizando, no ano  em que faleceu .


Queria conhecer o rio Amazonas. E falava: “ Um dia  a gente vai  para lá”. Só que esse dia não chegou. 


Esses são alguns dos desejos que lembro. Se soubéssemos de tudo que viria, talvez esses passeios teriam se realizado.


Ele gostava de U2 e Coldplay, mesmo com a pouca idade. Quando vieram para o Brasil fiquei pensando se ele não estaria indo ao show. Mas isso já fruto da imaginação. Do “ e se “ que maltrata e é irreal.


O que temos nessa vida é somente o hoje. O futuro, como dizem, a Deus pertence. A astronave “impilotável”, que sem pedir licença, tudo muda. Numa fração de segundo.



sábado, 4 de julho de 2026

Girassóis



           Sempre faço algo diferente nos aniversários de passagem e no aniversário dele. Normalmente, pouquíssimas pessoas sabem. É algo muito meu, particular.  

            Já celebrei o aniversário dele numa creche, onde ele costumava ir com a escola. Levei bolo, salgadinhos, docinhos e refrigerante. Um lanche diferente para as crianças.  

            Uma maneira de ritualizar e homenagear a sua vida e a sua passagem.

            Girassóis procuram o sol: heliotropismo. Girassóis representam a busca de conexão com o divino e a iluminação espiritual.  

           Oferecer um girassol carrega significados profundos como admiração, respeito, gratidão e desejo de sucesso.

           No nono ano da sua morte, comprei 9 girassóis e distribuí para pessoas e lugares importantes para o João Pedro.  

             A casa da avó, que era o lugar onde ele mais amava almoçar. A escola, onde estudou a vida inteira. O clube onde treinava futebol. A casa de alguns amigos que ele frequentava com constância. E assim foi.  

             Uma homenagem e gratidão a essas pessoas e lugares. Uma forma de ele se fazer presente.


            “ Que eu seja todo dia como um girassol

               De costas para o escuro e de frente para a luz “


terça-feira, 16 de junho de 2026

Mais um dia 17

        


          Mais um dia 17 se aproxima. E eu estou aqui, em mais uma madrugada insone. Acordo do nada,  é difícil, às vezes, voltar a dormir. Era o horário que a enfermagem passava. Ainda  me persegue, em certos períodos, mesmo depois de tanto tempo. 

         Sim, tento trazer à consciência, tudo que me acontece. Para tentar compreender e prosseguir.  Por isso, a escrita me auxilia. Desde que a redescobri, ajuda a organizar as ideias, estruturar os pensamentos. Transmitir os sentimentos, sem perturbar terceiros. Porque o mundo, não tem paciência de ouvir. As redes sociais são hedônicas. E tristeza afasta as pessoas .

         

        No entanto,  não posso deixar de sentir o que sinto. Como diversas vezes repeti, luto de filho não se supera. Você  aprende a viver de uma forma diferente. Ressignifica sua vida. Mas o luto está lá. Passe o tempo que for.  A parte “ arrancada” de você , como muitas vezes ouvi de mães em luto, continua latejando. Umas vezes mais, outras nem tanto.


“Oh, pedaço de mim

Oh, metade amputada de mim

Leva o que há de ti

Que a saudade dói latejada

É assim como uma fisgada

No membro que já perdi” 

( Pedaço de mim, Chico Buarque 1977)