E quando a pessoa decide acabar com a própria vida, fica o questionamento: será que poderíamos ter feito algo para impedir? Será que algo passou despercebido? Até que nos conformamos com a nossa humana impotência e entregamos ao Divino o que não está ao nosso alcance. Que esteja em nossas orações.
Publicações do dia 17
Luto, perda do filho, dia 17, publicações do dia 17
domingo, 27 de setembro de 2026
Testemunha
E quando a pessoa decide acabar com a própria vida, fica o questionamento: será que poderíamos ter feito algo para impedir? Será que algo passou despercebido? Até que nos conformamos com a nossa humana impotência e entregamos ao Divino o que não está ao nosso alcance. Que esteja em nossas orações.
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Carta de onze anos
Meu filho amado,
Já são onze anos sem você neste plano. Mas nenhum dia sequer deixou de estar comigo. Guardo você, e todas as nossas lembranças, num recanto do coração que sempre foi, e sempre será, seu.
Você faz tanta falta por aqui. Sua alegria contagiante, seu sorriso, seu humor irreverente, seu som que preenchia a nossa casa. Soam agora como melodias incompletas. Tal como a Sinfonia Inacabada de Schubert, faltante em sua estrutura tradicional, artisticamente perfeita.
Gostaria de contar tudo que aconteceu neste tempo de ausência presente, de presença fisicamente ausente.
Da formatura da sua irmã, do envelhecimento dos seus avós, da Vívian namorando e na faculdade, dos nossos passeios, do futebol que não veria o Brasil ganhar a Copa, do álbum de figurinhas que não foi feito pela primeira vez este ano aqui em casa. Dos priminhos, filhos do Ju e da Tha, que chegaram, do Vi que está em Hong Kong, da Bel que se formou, bem como a maioria dos seus amigos. E tantos outros acontecimentos que eu esqueceria muitos.
Mas sinto que, de onde estiver, sempre nos acompanha. E em cada alegria, vibra conosco. E em cada preocupação e tristeza, nos acalenta.
Ainda assim, em datas como essa, é impossível não sentir a saudade que esmaga meu peito. E a dor que dela advém. Saudade de tudo que vivemos e deixamos de viver.
Sim, sei que quer me ver bem. Mas negar esse sentimento seria negar a mim mesma. Sabe que ressignifiquei a vida para poder sobreviver, sem você por aqui. Para aprender a viver, sem você, amputado de mim. Arrancado tão bruscamente do nosso convívio.
Ao contrário do que diz a música, o silêncio existe porque houve som. A escuridão existe porque houve luz.
Mas tudo que eu escrevesse não seria suficiente para expressar o que gostaria. Não cabem tantos sentimentos que nem sei nomear.
Sigo calada ou escrevendo, nesta sinfonia inacabada de silêncios e de luz. Encontrando onde ficar.
E você segue na luz. Refletindo toda a luminosidade que espalhou por aqui, em seu breve tempo terreno. Marcando eternamente nossos corações.
Com o coração pleno de saudade, amo-o para todo e sempre,
Sua mãe
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Entre 15 e 17
Foi em um dia 15 de setembro que recebi a notícia da morte cerebral do meu filho. No dia 17, o coração parou. E o meu parou junto.
Escrevi esse poema sobre esses dias .
Entorpecida
Paralisada
Enevoada
Dias viventes
Simplesmente
Sobreviventes.
sábado, 12 de setembro de 2026
Ilusão
Quero a leveza dos dias felizes,
Dos dias encantados pelo sorriso fácil,
Das conversas bobas,
De correr atrás do meu filho, provocativo ao dizer que não o pegaria,
De tantas cócegas até "pedir água",
De escutar que me amava muito, muito, muito até o infinito,
De escondido bisbilhotar o que conversava com a irmã,
Do leva e traz cantante entre idas e voltas para a escola,
Da torcida nos jogos de bola,
De ganhar bolachinhas e presentinhos no dia das mães,
Das apresentações de piano,
Das danças das festas juninas,
Dos inúmeros amigos que frequentavam essa casa,
Do barulho do videogame,
Da demora do banho cercado de inúmeros brinquedos,
Dos almoços na casa da avó,
Da cumplicidade com a Vívian provocando a Amanda,
Dos jogos com os primos,
Incontáveis e inumeráveis momentos.
Iludida, penso:
Quem sabe, profetizando, não os traga de volta?
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Sobrevivência
Por mais que eu queira a leveza, hoje é tempo de intensidade. Da dor intensa. Do último dia em que o vi reagindo consciente, quando passou rapidamente por nós, rumo à sala de cirurgia.
Da ansiedade, que não sei como controlei, do aguardo por mais de 16h na sala de espera. Apenas nós ali. Acabaram as cirurgias da manhã, as da tarde, as da noite. E esperando... mais de meia-noite. Com a resposta de que a biópsia havia sido inconclusiva (dando falsas esperanças).
Depois soubemos que houve uma parada cardíaca, antes mesmo do início.
Não sei como sobrevivi. Sei que precisava ser forte para ficar ao lado dele. Ele precisava de mim.
Entendo quando dizem que as mães que perderam seus filhos são sobreviventes.
Quando a Cissa Guimarães fala que somos "mulheres amputadas", que não seremos mais 100% felizes.
Mas podemos ser 80, 70, por cento, sei lá, felizes. Para honrar quem partiu e por nós mesmos.
Busco isso, nem sempre é fácil. Para nós, é mais difícil. Mas quem sobreviveu a essa dor, a maior do mundo, tem uma força descomunal. É que às vezes cansamos. Precisamos de colo. E, principalmente, de nos darmos colo. Ombrearmos com quem nos faz bem e com o que nos faz bem. Autocuidado. Sobrevivência.
sábado, 29 de agosto de 2026
Cada dia uma lembrança
Do dia em que passou mal na casa do amigo. Da última vez que dormiu em casa. Da consulta fatídica e do diagnóstico. Da internação no Hospital Infantil para drenar o líquido, a primeira cirurgia. Da segunda cirurgia, para colocar a válvula. Da transferência de helicóptero para Curitiba, com temperatura gelada. Da última conversa que tivemos, ele já sonolento. Da ansiedade e da preocupação torturante na sala de espera, de uma cirurgia de mais de 17 horas, com biópsia inconclusiva. Da angústia do coma induzido e da expectativa do retorno que não aconteceu. Da delicadeza de um médico e da crueldade de outro, ao comunicar a gravidade do caso. Da mudança de rotina no dia do feriado de 7 de setembro. Do teste da morte cerebral que demorou a ser conclusivo. Da frieza da médica que desligou os aparelhos na minha frente, motivo, não por queixa minha, de reunião disciplinar. E do coração valente, que teimosamente funcionou por dois dias e parou de bater na minha frente.
Milhões de pensamentos: tristeza, revolta, gratidão, saudade, possibilidades…Difícil até nomear cada um deles.
Quem me conhece sabe que não sou só dor. Sou grata por todos os momentos felizes e lindos que tivemos. Grata pela minha família e pelos meus amigos, que me motivam a seguir em frente e que me deram e me dão o colo de que preciso, quando preciso. Grata a Deus por ter me feito sobreviver, pois as mães que passam por isso são, acima de tudo, sobreviventes, e que me faz viver.
No entanto, sei, por todo esse tempo que passou, que neste momento é assim: emergir, e não fugir dos sentimentos. Para ganhar fôlego, impulso e poder seguir em frente. Em paz.
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Dia de paradoxos
Hoje, minha filha dorme em casa, de mudança, após 6 anos morando fora. Hoje, exatamente, faz 11 anos que meu filho dormiu nesta casa pela última vez. A vida é cheia de ironias e paradoxos.
Em meio a tanta alegria da formatura da filha, à sensação de cumprimento de uma etapa e às homenagens emocionantes, vem a lembrança de que, nesta mesma data, ele havia passado mal. Infelizmente, todas essas datas ficam gravadas em nossa memória e em nosso coração. E elas pulsam, mesmo que involuntariamente, mesmo em meio a emoções gratificantes e alegres.
Voltar para casa com as orquídeas floridas e os rabinhos de helicóptero nos recebendo é muito bom. Voltar para casa e lembrar que ainda o tinha comigo neste plano, aqui, há 11 anos, nem tanto.
Se pudesse voltar no tempo... se pudesse congelar alguns momentos e pular outros. Infelizmente, máquina do tempo existe apenas no pensamento. Ou na imaginação, distante da realidade.






