Do dia em que passou mal na casa do amigo. Da última vez que dormiu em casa. Da consulta fatídica e do diagnóstico. Da internação no Hospital Infantil para drenar o líquido, a primeira cirurgia. Da segunda cirurgia, para colocar a válvula. Da transferência de helicóptero para Curitiba, com temperatura gelada. Da última conversa que tivemos, ele já sonolento. Da ansiedade e da preocupação torturante na sala de espera, de uma cirurgia de mais de 17 horas, com biópsia inconclusiva. Da angústia do coma induzido e da expectativa do retorno que não aconteceu. Da delicadeza de um médico e da crueldade de outro, ao comunicar a gravidade do caso. Da mudança de rotina no dia do feriado de 7 de setembro. Do teste da morte cerebral que demorou a ser conclusivo. Da frieza da médica que desligou os aparelhos na minha frente, motivo, não por queixa minha, de reunião disciplinar. E do coração valente, que teimosamente funcionou por dois dias e parou de bater na minha frente.
Milhões de pensamentos: tristeza, revolta, gratidão, saudade, possibilidades…Difícil até nomear cada um deles.
Quem me conhece sabe que não sou só dor. Sou grata por todos os momentos felizes e lindos que tivemos. Grata pela minha família e pelos meus amigos, que me motivam a seguir em frente e que me deram e me dão o colo de que preciso, quando preciso. Grata a Deus por ter me feito sobreviver, pois as mães que passam por isso são, acima de tudo, sobreviventes, e que me faz viver.
No entanto, sei, por todo esse tempo que passou, que neste momento é assim: emergir, e não fugir dos sentimentos. Para ganhar fôlego, impulso e poder seguir em frente. Em paz.






