
Lendo Aos pés da letra, do Gregório Duvivier, fiquei a refletir sobre o prefixo "des-". Geralmente com significado de negação, como em desfazer, desleal, desumano.
Às vezes, indica ação contrária, como em desaguar. Ou intensificação, como em despedaçar. Ou origens diversas, como em despertar.
Fui procurar por "desluto". Para minha surpresa, confesso, existe no dicionário: fim do luto, ato de deixar o luto. E luto, segundo o mesmo dicionário, é chorar por uma morte.
Escrever parece fácil. Basta acrescentar o prefixo de negação. Na vida, a negação não resolve. Podemos negar, mas a dor está lá. A ausência está lá. Tantos sentimentos confusos e misturados estão lá. Deixamos num cantinho escondido, mas está lá. Às vezes calada, silenciada. E, por vezes, querendo gritar. O mundo continua a girar e nós paramos num momento, por um tempo, onde tudo ocorreu.
Ah, se fosse apenas acrescentar o prefixo "des-"! Antes, temos que nos desmontar, despedaçar, não desesperar, desatar nós, desaguar mágoas, desamarrar-nos, desabitar-nos e tantos outros "des". E, com licença poética, desmundar, pois, mesmo sem querer, nosso mundo mudou totalmente.
Como temos um destino a seguir, para o nosso desatino, tentemos e iremos ao desluto. Embora o desluto, às vezes, desdelute e volte ao luto, para depois retornar ao desluto. Parece papo de doido? Assim é. Mesmo tendo saído do luto, mesmo depois de muito tempo, podemos voltar às sensações do luto. Datas comemorativas, gatilhos. Não negá-las ajuda a retornar ao desluto. E assim seguimos.





