
“ O que é meu, é só meu, nunca ninguém vai entender”.
Ela disse baixinho, quase como quem reza. Uma senhora de sabedoria inteira, passando pelo difícil momento da saúde frágil de seu marido, seu companheiro há 75 anos.
75 anos de braços dados com alguém. 75 invernos, 75 verões, contas pagas, filhos criados, netos, bisnetos, brigas, reconciliações, silêncios que apenas eles entendem. Como alguém haveria de entender por inteiro? Uma vida inteira construída a quatro mãos.
Ela, uma mulher de fé. Crê, com toda força, na vida após a morte. No entanto, lúcida, tem plena consciência do agora. Da despedida possível. Da cadeira que pode ficar vazia.
A fé consola, mas não apaga a falta que pode fazer uma mão que segura há 75 anos. Não 75 dias, nem 75 horas.
Sim, cada um sabe o que sente. Cada um sabe “a dor e a delícia de ser o que é“. Cada relação é única, porque as pessoas também o são. Por isso os sentimentos são diversos. Por isso o luto - que às vezes chega em vida - tem tantas formas de doer.
Se soubéssemos o que se passa no coração e na mente das pessoas, talvez fôssemos mais empáticos. Ainda que a dor seja sua e a minha dor, exclusivamente minha.
Ps : Assim que enviei o texto para a sua neta veio a notícia do falecimento do Sr. Oswaldo ( com W), deixando-nos com o rosto sereno. Que esse pequeno texto possa acalmar um pouco o coração de D. Idalina, como os três beijos de despedida, na esperança do reencontro. E que Deus abençoe a missão que ainda tem por aqui, com a linda família que construíram.





