terça-feira, 28 de julho de 2026

Sorria

 

        Outro dia escutei a música Sorri, com o Djavan — versão de Smile, do Charles Chaplin.  

        Lembrei da original e da cena de Tempos Modernos, com essa música ao fundo, em meio a personagens que buscam recomeçar a vida.

         Penso que ela nos remete ao processo do luto.  

          E quando temos o coração partido, arrancado do peito, e mesmo assim, às vezes, tentamos sorrir.

           E, ilusoriamente, o mundo pode "supor a felicidade", como diz  a versão cantada por Djavan.  

           Ou "embora uma lágrima possa estar tão próxima, é o tempo que você tem que continuar tentando", ao sorrir, como diz a letra original.

           Quantas vezes disfarçamos, tentando sorrir?  

           Ah, como dói o luto.

           Quem sabe, sorrindo, possamos ver o sol.  

           Se não brilhando, aquecendo nossos corações tão machucados.



Letra da versão brasileira de Smile 

Sorri

Quando a dor te torturar

E a saudade atormentar

Os teus dias tristonhos, vazios

Sorri

Quanto tudo terminar

Quando nada mais restar

Do teu sonho encantador

Sorri

Quando o Sol perder a luz

E sentires uma cruz

Nos teus ombros cansados, doridos

Sorri

Vai mentindo a tua dor

E ao notar que tu sorries

Todo mundo irá supor

Que és feliz...

Sorri

Vai mentindo a tua dor

E ao notar que tu sorries

Todo mundo irá supor

Que és feliz

Smile

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Sem reprises


 “A vida não garante reprises; se algo é importante para você, não adie - faça enquanto é tempo” 

Recebi dia destes de um amigo. Fiquei pensando no que gostaria de ter feito com o João Pedro e não fizemos. 


Ele não foi a um jogo do Corinthians, no Itaquerão. Achamos que teria muito tempo para ir. Nem  mesmo da seleção brasileira, ou da Copa, aqui no Brasil que não conseguimos comprar os ingressos.


Ele queria ver a neve e não teve oportunidade. Iríamos para o Chile com uns amigos e acabou não realizando, no ano  em que faleceu .


Queria conhecer o rio Amazonas. E falava: “ Um dia  a gente vai  para lá”. Só que esse dia não chegou. 


Esses são alguns dos desejos que lembro. Se soubéssemos de tudo que viria, talvez esses passeios teriam se realizado.


Ele gostava de U2 e Coldplay, mesmo com a pouca idade. Quando vieram para o Brasil fiquei pensando se ele não estaria indo ao show. Mas isso já fruto da imaginação. Do “ e se “ que maltrata e é irreal.


O que temos nessa vida é somente o hoje. O futuro, como dizem, a Deus pertence. A astronave “impilotável”, que sem pedir licença, tudo muda. Numa fração de segundo.



sábado, 4 de julho de 2026

Girassóis



           Sempre faço algo diferente nos aniversários de passagem e no aniversário dele. Normalmente, pouquíssimas pessoas sabem. É algo muito meu, particular.  

            Já celebrei o aniversário dele numa creche, onde ele costumava ir com a escola. Levei bolo, salgadinhos, docinhos e refrigerante. Um lanche diferente para as crianças.  

            Uma maneira de ritualizar e homenagear a sua vida e a sua passagem.

            Girassóis procuram o sol: heliotropismo. Girassóis representam a busca de conexão com o divino e a iluminação espiritual.  

           Oferecer um girassol carrega significados profundos como admiração, respeito, gratidão e desejo de sucesso.

           No nono ano da sua morte, comprei 9 girassóis e distribuí para pessoas e lugares importantes para o João Pedro.  

             A casa da avó, que era o lugar onde ele mais amava almoçar. A escola, onde estudou a vida inteira. O clube onde treinava futebol. A casa de alguns amigos que ele frequentava com constância. E assim foi.  

             Uma homenagem e gratidão a essas pessoas e lugares. Uma forma de ele se fazer presente.


            “ Que eu seja todo dia como um girassol

               De costas para o escuro e de frente para a luz “


terça-feira, 16 de junho de 2026

Mais um dia 17

        


          Mais um dia 17 se aproxima. E eu estou aqui, em mais uma madrugada insone. Acordo do nada,  é difícil, às vezes, voltar a dormir. Era o horário que a enfermagem passava. Ainda  me persegue, em certos períodos, mesmo depois de tanto tempo. 

         Sim, tento trazer à consciência, tudo que me acontece. Para tentar compreender e prosseguir.  Por isso, a escrita me auxilia. Desde que a redescobri, ajuda a organizar as ideias, estruturar os pensamentos. Transmitir os sentimentos, sem perturbar terceiros. Porque o mundo, não tem paciência de ouvir. As redes sociais são hedônicas. E tristeza afasta as pessoas .

         

        No entanto,  não posso deixar de sentir o que sinto. Como diversas vezes repeti, luto de filho não se supera. Você  aprende a viver de uma forma diferente. Ressignifica sua vida. Mas o luto está lá. Passe o tempo que for.  A parte “ arrancada” de você , como muitas vezes ouvi de mães em luto, continua latejando. Umas vezes mais, outras nem tanto.


“Oh, pedaço de mim

Oh, metade amputada de mim

Leva o que há de ti

Que a saudade dói latejada

É assim como uma fisgada

No membro que já perdi” 

( Pedaço de mim, Chico Buarque 1977)

domingo, 17 de maio de 2026

Lacuna

          


         Não quis escrever sobre o dia das mães, no dia das mães. Minha filha estava aqui. Não lembro qual a última vez que passamos o Dia das mães juntas. Minha mãe já em idade avançada. Não seria justo com elas.

          Conversando com uma amiga, irmã da mesma dor sem nome, ela me disse : “ aprendemos a fingir que está tudo bem , pelo que estão aqui. Tem um buraco que nunca mais é preenchido .” 

         Ao ouvir essa declaração, chorei. Somos fortes, seguimos em frente, mas muitas vezes choramos sozinhas na calada da noite. Em datas comemorativas, ou simplesmente do nada . Vem uma vontade de chorar.

        Ressignificamos a vida , mas essa lacuna fica. Estão conosco sempre, mas nunca mais fisicamente. E isso nos tortura. E quando lembramos, resta-nos verter lágrimas. Ainda que momentaneamente. Para depois seguir em frente.

sábado, 9 de maio de 2026

O filho que eu tive


          Revendo alguns textos, para publicar , na página do @publicacoesdodia17, reencontrei um texto que falava da música “ o filho que quero ter “.  


“ É comum a gente sonhar, eu sei

Quando vem o entardecer

Pois eu também dei de sonhar

Um sonho lindo de morrer

Vejo um berço e nele eu me debruçar

Com o pranto a me correr

E assim chorando acalentar

O filho que eu quero ter

Dorme meu pequenininho

Dorme que a noite já vem

Teu pai está muito sozinho

De tanto amor que ele tem

De repente o vejo se transformar

Num menino igual a mim

Que vem correndo me beijar

Quando eu chegar lá de onde eu vim

Um menino sempre a me perguntar

Um porquê que não tem fim

Um filho a quem só queira bem

E a quem só diga que sim

Dorme menino levado

Dorme que a vida já vem

Teu pai está muito cansado

De tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar

Pelo tanto que me deu

Sentir-lhe a barba me roçar

No derradeiro beijo seu

E ao sentir também sua mão vedar

Meu olhar dos olhos seus

Ouvir-lhe a voz a me embalar

Num acalanto de adeus

Dorme meu pai sem cuidado

Dorme que ao entardecer

Teu filho sonha acordado

Com o filho que ele quer ter”.


        Esse texto, do Vinicius de Moraes, foi criado, após uma conversa com o Toquinho, imaginando como seria ser pai. E o deixou muito emocionado, aos prantos. 

        E assim me encontrei também, após ouvir novamente. 

        A proximidade do dia das mães faz com que fiquemos mais sensíveis. 

       Lembramos que um dia imaginamos o filho que teríamos. Que rostinho teria, quais seriam os gostos, como cresceria, até nos acompanhar na finitude de nossas vidas , prosseguindo com a dele. A morte de um filho rompe com todo esse ciclo. E agora, só nos resta imaginar novamente : que rosto teria, como estaria. 

       João Pedro , você foi o filho que eu queria ter tido . E tenho, para sempre em meu coração.



sexta-feira, 17 de abril de 2026

Campanha Nanda Sempre Viva

         Em 2026 completaremos quinze anos sem a nossa querida Fernanda. Quinze anos, para a história não é nada. Para a vida de alguém é a adolescência plena. Assim, também é o luto. Tudo é tão presente, que faz parecer que o tempo é pouco. E a saudade imensa, faz o tempo parecer infinitamente longe. 

        Nesses anos passamos por tantas lutas e perdas .

        “ Um dia o amor virou saudade, mas nunca deixou de ser amor “ . 

          Muitas percepções mudam, após uma experiência de luto. E as canções que antes, eu escutava como de um amor romântico, mudei a forma de perceber. Mas continua sendo amor .

          Por esse amor, conseguimos prosseguir.   O amor de Deus, que nos mantém em pé. O amor pelos nossos filhos, os que estão no plano terreno e os que não estão. O amor ao próximo que tanto necessita de nosso auxilio.

          Por esse amor, Marielza continua a iniciativa que Fernanda teve, enquanto estava conosco. Através das caixas distribuídas, campanhas paralelas, Vakinha virtual, entre outros, direcionaremos para a compra de água de coco, gelatina diet, bolachas de água e sal, bolachas de maizena e copos descartáveis. Material tão necessário aos pacientes do Hospital do Câncer. E já aguardado pela direção do HC.

Pelo décimo quinto ano. Só temos a agradecer a todos que participam dessa linda campanha .

         Testemunho de coragem de quem tem uma ausência irreparável, mas num ato de resistência segue em frente. Com a ajuda e participação de todos. Nosso muito obrigado.