sábado, 30 de agosto de 2025

Insônia

       


           São  4:40h. Agosto chegou e veio a insônia não desejada. Acordo do nada, no meio da madrugada. Já não ocorria, faz um tempo. E ela voltou. Sem pedir licença. Demoro voltar a dormir, despertando cansada pela manhã.      

         Sim,  tenho estado acelerada. A antologia do luto, em homenagem aos 10 anos da passagem do João Pedro, divulgação, live . Cabeça a mil. Muitas providências em relação ao escritório. Mas sei que não é apenas isso. 

            O que ficou dos dias vividos 10 anos atrás, tem me entristecido. O corpo, a mente e o coração possuem memórias. Revivo a tensão, a esperança, o medo da perda, a rotina do hospital. O “ não pensar”  ( embora pensando ) e a negação da possibilidade que meu filho poderia  partir. A fé em que tudo “ terminaria bem “ , pois se eu não acreditasse quem o faria ? 

         Talvez seja esse o porquê da insônia. Estou precisando do silêncio da madrugada. Da “ não agitação “ dos meus dias. De dizer sim ao luto que vem nesse período. De mergulhar, para pegar o impulso e emergir. E assim respirar. Sobreviver. E viver.

domingo, 24 de agosto de 2025

Medo

                 Com o luto, veio o medo. 

              Medo de perder o que já perdemos. Medo de perder o que ainda não perdemos. Medo da possibilidade da perda. Medo das diversas perdas. Medo de passar novamente pelo que passamos . 

              A percepção dos fatos mudou após a sua partida. Não somos mais quem éramos. Nem voltaremos a ser .

               22/08, exatamente 10 anos atrás, meu filho passou mal. E foi internado, dois dias depois,  para não voltar mais para essa casa. Ainda lembro todas as datas. 

Dia 23, ficou quietinho, deitadinho. A Meg , a companheira de 4 patas, também emudecida ao seu lado. Em vigilância. Algo  incomum,  para dois seres inquietos e tão cheios de vida . 

                Desde então,  a casa foi silenciando. Sem sons de videogames, músicas cantaroladas, brigas entre irmãos, latidos provocados de cachorrinha , chegadas barulhentas .

               Em contraste, um sentimento diferente passou a gritar em meu coração. Que nem sempre tenho a compreensão. Às vezes dor. Às vezes nostalgia. Às vezes saudade intensa . Às vezes pesar. Às vezes gratidão. Às vezes medo. Às vezes algo que nem sei nomear: que me faz sorrir e/ou chorar emocionada.

                 São as perdas do luto.  São os “ ganhos” do luto. Não pedimos por nenhum deles.  Mas vieram. Eu que lute. Sempre . 

domingo, 17 de agosto de 2025

Resiliência

          

          Tenho acompanhado meu pai,  com 90 anos, mudando do seu escritório. Desfazendo de muitos objetos, livros acumulados ao longo dos anos. Guardando o que possui memória afetiva. Imagino, só imagino, o que se passa em sua mente . Quantas lembranças de amigos que já se foram, familiares, acontecimentos que não mais ocorrem. 

           Faço um paralelo com o luto. É uma luta solitária, contra os fatos. 

           Desfazer dos objetos dos amados:  vestimentas, sapatos, livros, peças de estimação.

           Quantas lembranças tudo isso traz. Aquele dia em que estava com aquela roupa . Quando ganhou aquele presente que o fez sorrir. As fotos daquela viagem inesquecível. Das comemorações em família que não mais ocorrem da mesma maneira. Não é fácil, nem nunca será . 

           Resiliência é a palavra mágica. Contra tudo e todos os fatos. Fé e esperança para tê-la.


( daqui um mês fará 10 anos da partida do João Pedro)