segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Finados


        Finados, dia dos mortos. De lembrar quem partiu dessa vida terrena. Como se fosse preciso um dia para lembrar, quando recordamos todos os dias.

         Finados vem de finitude. E quando não tem fim porque o ser amado está sempre conosco?

        Dia de oração para os mortos. Sempre, todo dia.

        Por isso, lembrei hoje do Poema de Natal de Vinicius de Moraes. Poema de Natal em Finados? Talvez porque vida e morte sejam faces de uma mesma moeda.


Poema de Natal  - Vinicius de Moraes


Para isso fomos feitos:

Para lembrar e ser lembrados

Para chorar e fazer chorar

Para enterrar os nossos mortos —

Por isso temos braços longos para os adeuses

Mãos para colher o que foi dado

Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer

Uma estrela a se apagar na treva

Um caminho entre dois túmulos —

Por isso precisamos velar

Falar baixo, pisar leve, ver

A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:

Uma canção sobre um berço

Um verso, talvez de amor

Uma prece por quem se vai —

Mas que essa hora não esqueça

E por ela os nossos corações

Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre

Para a participação da poesia

Para ver a face da morte —

De repente nunca mais esperaremos a vida.

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