domingo, 16 de maio de 2021

Onde encontro meu filho

 


           Encontro nos textos que escrevo para ele, para mim e para quem passou e passa por uma dor assim.

           Encontro nas músicas que escuto e que canto que antes tinham um significado e passaram a ter outro.

           Encontro no pôr do sol que amo tanto fotografar.

           Encontro durante as minhas orações e meditações.

           Encontro nas suas fotos, em algumas camisas de futebol guardadas e no seu quarto que não tem mais seu cheiro.

           Encontro nos almoços na casa da Bathan, no canto do sofá que ficava, no seu lugar na mesa da cozinha, agora desocupado.

           Encontro nos caminhos que fazíamos juntos e que não são mais os mesmos.

           Encontro nos sonhos que são raros, mas que me trazem você de volta .

           Encontro nas comidas que gostava, nos desenhos que guardei , nos presentes e cartões que fez para mim ( verdadeiros tesouros).

          Encontro nas caminhadas , quando sigo pensando na vida.

          Encontro na chuva que traz o seu último aniversário por aqui.

          Encontro nas divagações : como estaria, que altura teria, qual vestibular estaria prestando , os amigos que continuariam em sua vida.

          Encontro nas  lembranças, que são memórias amadas e por isso eternas.

          Encontro em todo lugar, ou melhor não encontro, porque você já está em mim. Para sempre.


( Para o dia das mães,  Teresa Gouvea pediu para que gravasse uma mensagem para ser publicada no Laços e Lutos ( na página do Instagram ), com o tema “ onde encontro meu filho”. Muito honrada em participar. O vídeo ficou lindo com vários depoimentos. Emocionante).



Escrito em 08/05/2021





sábado, 8 de maio de 2021

Dia das mães 2021

          


             Sou mãe, mas também sou filha. Como filha, tenho a graça de ter a companhia dos meus pais idosos por aqui

           Como mãe ....falta a “metade afastada de mim”. Sempre presente e ausente ao mesmo tempo.

           Talvez por isso, essa ausência presente  ou essa presença ausente dói demais.

            A sensação de incompletude, de “faltando um pedaço “ será sempre companheira.  Especialmente em momentos como estes.

            No entanto, sou grata por ter você em minha vida. Você e sua irmã são a melhor parte de mim. Meu coração fora de mim.

            Se me perguntassem onde gostaria de estar, responderia: em algum lugar do passado, tomando chazinho, comendo bolachinhas, bolos e sanduíches preparados e servidos por pequenas mãozinhas. E ganhando os presentes feitos : sachê com o carimbo dos dedinhos, bolsas pintadas a mão, vasos de temperos, porta-guardanapos,  pratos de mosaicos entre outros verdadeiros tesouros.

            Amo ser  a mãe eterna de vocês.



PS:  Sexta-feira que antecedia o dia das mães era o dia das homenagens na escola ( João Pedro estudou dos 3 aos 12 anos na mesma escola e a Amanda até o nono ano). Os lanches eram preparados e servidos por eles, desde a pré-escola até os do nono ano. Bem como os nossos presentes.

sábado, 1 de maio de 2021

Permissão para os lutos necessários da vida


              A sabedoria popular nos brindou com uma expressão cada vez mais desvalorizada e ignorada pela maioria das pessoas. O “tempo é o melhor remédio” não é algo que se aplica às pessoas mais impulsivas e àvidas pelo prazer contínuo. Cada vez mais, em nossa sociedade, os espaços para se viver o luto de algumas perdas estão se tornando escassos e rápidos demais. É bem provável que muitos de nós se ocupe demasiadamente para não pensar que o dia acaba e que todo processo humano tem início, meio e fim, conforme ressalta Ivan Capelatto (2014). Não há mais tempo a perder, se vangloriam muitos que acreditam que a tristeza, a dor, o sofrimento pelas decepções, frustrações, para as perdas de qualquer tipo, não unicamente, a morte, devam ser interrompidas, anestesiadas, evitadas. Algumas expressões corriqueiras adotadas por muitos de nós expressam nossa incapacidade para “suportar” a angústia que caracteriza toda vida humana, que nos dá o direito a alguns ganhos, mas também, às perdas. “Não fique assim, isso logo passa;” “para de chorar”; “deixa de frescura”. Estas expressões denotam a insensibilidade que muitos, por não conseguirem vivenciar com maturidade alguns pesares próprios da vida, se defendem para não vivenciar os sentimentos de tristeza e vazio que podem assolar qualquer ser humano lúcido e não apenas aqueles que porventura, desenvolvem um quadro depressivo importante.  

            Mesmo uma situação simplesmente banal ou sem importância aos olhos dos mais desavisados, pode ser entendida como perda, como por exemplo, os aniversários, a troca de escola, a mudança de casa, de cidade, de emprego, o final do ano que se aproxima. Todos estes eventos da vida cotidiana, inevitavelmente, nos colocam diante de perdas, mesmo que possam estar revestidas de ganhos, de conquistas e de presentes. Os eventos de nossas vidas marcados com rituais de passagem, de despedida evidenciam justamente o fim de uma etapa e início de outra. Geralmente, se valoriza apenas a segunda, ignorando o fato de que qualquer situação envolve esta aparente contradição entre ganhos e perdas. Nenhum ser humano está livre desta condição.

            Tenho insistido muito sobre esta questão, na tentativa de ajudar muitos a reconhecer nossas fragilidades, para então, perceber o potencial para viver de uma forma mais madura e consciente. Que possamos permitir que o outro chore, se for preciso, sofra, se for preciso e que tenha a coragem para viver a delícia e a dor de uma vida, pelo menos, interessante.

A mente cura - Rogério Thadeu

Referências:


Capelatto, I. A vida humana – perdas e consequências. Londrina, Editora Universitário, 2014


Thaddeu, R. No limite das emoções. Londrina, Amplexo, 2005.


(Reproduzo este texto que muito gostei)

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Música


            “  Todo dia devíamos ouvir um pouco de música ...”

             Ah, música. Como nos faz recordar de pessoas, locais, períodos de nossas vidas. Como faz viajar ...

             Você era muito musical. Não sei se por ter sido estimulado desde cedo, ou por qualidades próprias . Tinha facilidade para tocar e cantar.

             De algumas músicas, comentei e postei. Tal como Aquarela que cantávamos muito.

            Algumas letras, hoje, vejo de forma diferente.

“Quando penso em você 

Fecho os olhos de saudades

Tenho tido muitas coisas

Menos a felicidade “

            Essa letra pensava em amor romântico. Hoje penso em você ...


“ Não sei porque você se foi

Quantas saudades eu senti

E na parede do meu quarto

Ainda está o seu retrato “

            Todo lugar tem meu pensamento em você .

 

“ De que vale o meu canto e eu

Se em meu peito há uma dor que não morreu 

Ah se eu soubesse ao menos chorar

Cantador só sei cantar...”

            Eu sei chorar , e muito já chorei.


             Por isso:


“Ando devagar porque já tive pressa

E levo esse sorriso

Porque já chorei demais”

            E assim vamos tocando em frente...


            E a que mais me dói :

“ A saudade é o revés do parto

A saudade é arrumar o quarto 

Do filho que já morreu 

Oh pedaço de mim

Oh metade afastada de mim”

             Essa diz tudo e dói até o fundo da minha alma.


             Como dizia o poeta (não  a música) - Camões :

“ Alma minha gentil que tu partiste

tão cedo dessa vida descontente 

Repousa lá no céu eternamente 

E viva cá na Terra sempre triste”

             Não sempre triste, mas com uma melancolia que às vezes assombra.


              Desta vez a  música do poetinha:

“ Quem já passou por esta vida e não viveu

Pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Porque a vida só se dá pra quem se deu

Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu...” 

               Choro, sofro, porque vivi momentos que estão eternizados, meu filho. Que não saberia quão intensos  são, se não os tivesse vivido. 

João Pedro fez aulas de musicalização antes mesmo de entrar na pré-escola. 

Ouvia muita música desde pequeno. Tinha facilidade para cantar e tocar instrumento. Um de seus muitos talentos ( na visão da mãe coruja).



sexta-feira, 2 de abril de 2021

Páscoa

 



               Páscoa traz lembranças de comemorações de outros tempos. Sem pandemia, com vocês crianças. 

               Começava na véspera, colocando cenouras, folhas e água para o Coelhinho. E uma caminha. No dia seguinte, só restinhos ficavam  e um pouquinho de água.  E uma caminha bagunçada com os ovinhos por ele deixado. Ah, com as pegadinhas de quem passou... 

               Na escola, o coelho da Páscoa também chegava. Havia atividades com ovos de galinha que vinham  recheados de amendoins doces ( como quando eu era criança)  e os rostinhos pintados com bigodes e narizinhos vermelhos. E voltavam cantando: “ de olhos vermelhos, de pelo branquinho ...”

               Com eles um pouco maiores, virou Caça ao tesouro. Várias pistas até chegar aos ovos desejados.

               Aqui teve coelhinho da Páscoa, Papai Noel, fada dos dentes . Espero que eles tenham essas memórias  nos seus corações. Nós pais, aproveitamos muito. Vivemos juntos essa magia da fantasia da infância, desfrutando todos esses momentos.

               Apesar de tantas recordações, a Páscoa traz a mensagem de esperança e fé. Não é aqui que tudo se acaba. E um dia, no pós morte, estaremos juntos dos amados que antes partiram. Para sempre.



“Páscoa é a renovação da vida e com ela a esperança de um mundo melhor.”


( Escrito após ver a Malu com orelhinhas de coelho. Saudade veio invadindo o coração)  

quarta-feira, 24 de março de 2021

Uma borboleta azul

              


                   Meu aniversário chegando, mas queria escrever sobre o seu. O primeiro aniversário sem você por aqui caiu num domingo, como este ano. Todos tristes, com a saudade batendo mais forte ainda. Não queríamos ir almoçar na Bathan que era o lugar que você mais amava ir. Também sem vontade de fazer algo em casa, fomos numa praça da alimentação do Shopping, lugar bem impessoal onde não costumávamos ir de domingo no almoço.

                    Quietos, almoçando quase por obrigação. De repente, pousa uma borboleta azul  (a maior que já vi) no seu pai, do nada.  Fiquei olhando. E repentinamente, seu pai a espanta.

                     Conversando silenciosamente: “ não pode ser. Se for o que estou pensando, volte e pouse em mim”.  E ela voltou e pousou na minha perna. Fiquei imóvel e nós três só observando, não sei por quanto tempo. Momento esse em que o tempo nos ilude.


                   “A borboleta é vista como símbolo da transformação, da felicidade, da beleza, da inconstância, da efemeridade da natureza, expressa recomeço, proteção, boas energias. Significa o puro símbolo da mudança e renovação.”

 

                   O que pensar ? Não sei .  Nunca havia visto uma borboleta no shopping, ainda mais daquele tamanho. Mas de alguma forma, aquela borboleta acalmou a minha alma. 


( Escrito num domingo, após uma conversa sobre borboletas com duas amigas queridas)

terça-feira, 16 de março de 2021

Flores pra você

              



              Hoje dia 17, desta vez aniversário da sua obatham.  Quando bebê, ela ia todo dia ver você. A Amanda já estava na pré-escola, então era você que ela dengava. 

              Depois que cresceu um pouco,  a casa dela era o lugar onde mais gostava de ir almoçar. De sábado o bife à milanesa (bem fininho ) e a batata frita eram imbatíveis. De domingo,você gostava do macarrão. Muitos amigos de vocês almoçaram por lá. Tinha o seu refrigerante, o chá da Amanda e o chá da Vivian. E o chocolate de preferência de cada um . Você já chegava perguntando se a Vívian  ( prima) tinha chegado. A casa foi palco de muitas brincadeiras e de brigas de vocês .

          A avó coruja dizia que os três netos dela eram lindos ( o que eu era obrigada  a concordar).

          No seu último ano, aguardando entre aulas,  às vezes dentista, você ficou bastante tempo novamente com ela durante a semana.  Ela ficava encantada quando dizia: “ não precisa descer comigo, pode ficar descansando”. Mas claro que ela descia, usufruindo mais um tempinho com você.

          Um dia arrumando a mesa para o almoço a obatham constatou: antes eram 9 pratos, depois 8, agora 7. Depois que a Amanda for para Uberaba serão apenas 6 ( mal sabia que ela iria e voltaria tão rapidamente por causa da pandemia).

          Esta semana, ela sonhou com você . Estavam em um lugar cheio de flores e você falando o nome de todas elas: violetas, rosas, gerânios , margaridas, orquídeas.

          Acho que era você trazendo flores de presente para o  aniversário da Obatham. Talvez comemorando do seu jeito.