sábado, 11 de fevereiro de 2023

Meg

           



             Olho para o cantinho dela, dá uma vontade de chorar. E choro.
            A Meg, a grande companheira da infância dos meus filhos,  está hospitalizada.  Já velhinha, com uma série de problemas. O nosso xodó , a bebê da Amanda ( apesar dos quase 14 anos) está lutando para sobreviver.

              Lembro dela, filhotinha  espevitada . Dava saltos enormes para subir em lugares altos. Corria, não andava nos passeios. Ouvia passeio, ou via a guia, ficava imensamente feliz. Companheirona, queria simplesmente estar conosco. Deitava na rede, com alguém de nós e adormecia ( até roncava). Brincava de esconde esconde com as crianças e entregava o escondido . Defendia as crianças : se percebesse que elas estavam levando bronca, vinha latir em protesto . Ficava deprimida quando via malas . Em compensação, o rabinho parecia uma hélice de helicóptero, de tanto que rodava ao retornarmos.

              Temperamental, geniosa , ao mesmo tempo doce e amável .

              Nos últimos dias do João Pedro em casa, não saia do lado dele.  Como se pressentisse algo. Durante muito tempo, nos horários da chegada dele ela ia para a porta. Às vezes entrava no seu quarto, como se estivesse procurando por ele.

               Ultimamente mudou de comportamento. Começou a se isolar . Ficava em lugares diferentes, como se o seu instinto estivesse dizendo algo.

               Espero não publicar este texto. E que ela possa retornar para casa.  E que possa ainda usufruir alguns bons momentos.

              Você é uma boa cachorrinha, Meg



PS: escrevi este texto antes dela falecer. Hoje ela nos deixou. Espero que esteja feliz brincando com o João Pedro 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Criar memórias

              

  
           Estava pensando sobre esta expressão , criar memórias . Sempre foi involuntário, mas estamos criando memórias nos atos mais simples . No dia a dia, na atenção voltada àquela pessoa, num afeto compartilhado . 

                Se me perguntasse de lembranças da infância o que eu diria? Das idas e vindas da escola, das brincadeiras de esconde esconde, das férias na casa da avó, dos passeios com o avô, das amigas reunidas em casa, dos aniversários, das idas para a praia, do Natal na casa da madrinha, entre tantas outras.

               Do que eu lembro da infância dos meus filhos? Das idas e vindas da escola, dos teatrinhos criados, pícnic, caça ao tesouro, do almoço na casa da obathan, dos passeio com o odithan, dos amigos reunidos em casa, dos aniversários, das férias , dos Natais, dos jogos e apresentações, entre tantas outras do dia a dia ( o local onde cada um sentava, o que faziam, o que diziam).

                Nunca tinha me dado conta da semelhança dessas lembranças. 

                Ontem, numa dessas coincidências, encontrei com uma das catequistas do João Pedro. 

                Na sequência, recebi esse recado :

“ Foi muito bom conversar com você hoje. Mas não podia deixar de dizer que a passagem do João Pedro aqui foi repleta de muita alegria. Ele teve uma família que cuidou muito bem dele, o amou muito por isso ele transbordava sempre de alegria em nossos encontros. Sempre sorridente e feliz.”

                Tem como não se emocionar ?

                 A gente sempre acha que podia ter feito mais, principalmente quando o amado( a) parte. Espero que tenham tido e tenham memórias deliciosas da infância. Como eu tenho. Como tenho da infância de vocês …


Ps: o João Pedro vinha feliz contando das contas de brigadeiro no terço, na catequese. Com certeza era uma das memórias criadas.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Sem ano novo


         
Para alguns, não haverá ano novo.  A irmã de uma amiga se foi. Em depressão desde a morte do filho, na pandemia. Minha avó partiu, após a morte do filho. Deprimiu e partiu. Creio que teria virado os 100 anos se assim não fosse. Drummond perdeu a filha e 6 meses depois partiu. Meu avô estava forte e saudável . Partiu depois de um ano e pouco depois da minha avó. Os pais de uma amiga/irmã partiram com 6 meses de diferença.

           Só tenho que a agradecer a Deus por ter me sustentado. E peço que continue me sustentando.

            Apesar de não ter ouvido minhas preces, e como pedi , para curar meu filho. Apesar de dizerem que “ as orações de uma mãe arrombam as portas do céu “ e não ter acontecido. Apesar do “ peças que atenderei”.  Apesar de não ter visto “a  sua cura, nem o  meu  milagre  acontecer “ .

            Reconheço , se não fosse por Ti  não estaria  aqui. Ter sobrevivido  já é um milagre .  Seguir em frente, ainda que mais difícil do que aparenta para os outros , também é .

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

O pós Natal

          






          Natal, festa de família reunida. Sempre vai faltar você . Sei que está com O aniversariante, mas você faz muita falta por aqui.

           Já são sete natais sem você . Não é igual .  Muitas vezes tenho que juntar forças, para montar árvore, decorar a casa , pensar no cardápio, providenciar presentes. Mas não acho que seria justo para a sua irmã e para os seus avós . 

            Reunir a família é ótimo, são bons momentos. Mas depois que tudo passa, bate uma sensação estranha. Talvez o vazio de saber que nunca mais teremos a sua presença física por aqui . Que sempre faltará você..

Aí o coração dói …

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Sinopse

                   



                  Foram doze anos e meio que meu filho esteve por aqui . Ele brincou muito, jogou bola, passeou, sorriu, chorou, emocionou e fez emocionar. Creio, foi feliz em sua curta passagem. Destas lembranças vívidas  e alegres , da experiência difícil no hospital, da dor da partida, do processo do luto , da saudade diária e da gratidão por tê-lo conosco, surgiram os textos que aqui compartilho . 

               Comecei escrevendo num processo terapêutico, para ajudar a organizar minhas ideias e sentimentos. Não parei mais.


               E se, de alguma forma estes textos auxiliarem no processo do luto de alguém , especialmente das mães que perderam seus filhos, já vai ter valido a pena.

domingo, 11 de dezembro de 2022

Mais uma vez Copa do mundo …

         



            Mais uma vez Copa do mundo. Quem era mais louco por futebol em casa, era meu filho. Desde pequeno com sua camiseta da seleção, torcendo. 

            Sim, eu segui minha vida. Mas certos fatos, lugares, datas trazem “gatilhos” sim. O luto, ainda que resolvido, não é linear . E o que eu vivi, merece ser honrado, lembrado. A mim pertence.

            Por isso viagens de férias , mar , aniversário, natal, futebol , traz lembranças.

Engraçado, da Copa de 2018 mal lembro. Sei que assisti os jogos. Só .

            No entanto, a Copa de 2014 vem com memórias. Tentamos comprar ingressos para o jogo do Brasil, em vão. Vimos alguns jogos aqui em casa: com amigos, com amigos do João Pedro. Num dos lances, ele segurando o riso, porque a mãe do amigo vibrou com o replay do gol. Olhava pra ele e estava muito engraçado. Cervejas e comidinhas típicas do time adversário. Divertido. Até aquele fatídico 7 a 1, inacreditável. Cada vez que ia buscar algo era um gol da Alemanha. 

           Encontro fotos de 2006 ( você tinha apenas 3 aninhos) e de 2010 quando já conseguia compreender um pouco . E colecionar o álbum de figurinhas da Copa. E ter como programa de domingo de manhã , trocar figurinhas no Mercado Shangri-la ( até na Tv apareceu) . Figurinhas que sabia de cabeça , as que tinha e as faltantes, deixando as pessoas impressionadas. 

             Ah, sua memória era impressionante. E o poder de observação também . Tão pequeno, tão novinho…

“ Não sei porque você se foi

Quantas saudades eu senti

E na parede do meu quarto

Ainda está o seu retrato…”

              E eu, sempre gostando tanto de você . Você sempre comigo. Sempre.


Escrevi este texto antes do último jogo do Brasil. Meu filho não viu o Brasil campeão da Copa da FIFA, nasceu pós 2002.

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

O mar

 

                Olho para o mar, impossível não me lembrar de você.

               Foram algumas viagens de férias para perto  do mar. Agora um mar de saudades no separa.

                Um mar de lembranças , de dias que vão ficando mais longes.

                 O mar acalma o coração. Traz paz só de olhar o vai e vem das ondas . Mesmo em dias de vento frio. Ao mesmo tempo, uma melancolia. Uma saudade que vem do fundo da alma. Um questionamento se estaria ou não conosco de férias , nessa época do ano. E outros sem resposta . Ou pior, sem perguntas. 

               No entanto, “ o mar quando quebra na areia “ continua sendo “ bonito, bonito”.

               Mesmo com a sua ausência nesse plano.