quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Flashes

          


           Nossa vida é feita de instantes. Bons ou ruins eles passam. Rapidamente. Alguns, como vieram passaram. Outros, duram eternamente.

           Trago tantos deles em meu coração. 

Os momentos felizes em que a  risada corria solta. Brincadeiras de infância. Refeições compartilhadas. Cantorias . Contação de histórias. Trajetos para escola. Volta para casa.  Provocações : “ você não me pega “. 

          Hoje o face me lembrou da sua última audição do piano. Exatamente 11 anos atrás. Tocando uma música que também toquei, o Astronauta ( dos personagens do Maurício de Souza ).

           Revê-lo tocando. Revê-lo em movimento. Revê-lo sério e depois com um sorrisinho contido. Ah … machucou o meu coração. Lembrar que não tenho mais essa possibilidade de revê-lo assim. Apenas no vídeo. Apenas em fotos. Apenas em lembranças.

           O quase dia 17.  O quase Natal. Quase final do ano, torna-nos mais sensíveis .

Saudades de um tempo que não volta . Nunca volta. 


( escrevi ontem após ver a lembrança no Face da última audição do João Pedro ) 

domingo, 16 de novembro de 2025

Acreditar

 

                Quantos sentimentos o luto traz inerente. O medo de não conseguir seguir em frente. Medo da partida de outras pessoas que amamos. Medo da pessoa que nos transformamos, pois ninguém sai de uma experiência de luto intensa, igual. 

                Com isso, revivemos a dor e o sofrimento. Revisitamos um lugar que estivemos .

                Assistindo uma entrevista da atriz Cissa Guimarães , que perdeu seu filho muito tempo atrás, destaco alguns pontos que, de memória, chamaram a minha atenção .

               “ Somos mulheres amputadas “, ou seja, quando nosso filho partiu, parte de mim foi arrancada. Tem um pedaço “ faltante “. Sempre terá. No entanto, sobrevivemos sem este pedaço. Vivemos sem ele.

               “ Não sou 100 por cento feliz, mas é possível ser 80, 90 por cento “.  Nesse caso eu me pergunto : alguém nessa vida é cem por cento feliz ?  Talvez o nosso “ potencial máximo “, seja menor.  Mas o nosso 90, 80, 70 por cento, ou menos,  pode ser maior que o quase 100 de alguém .    Sim, temos que lutar. Sempre. Diariamente. 

               Para isso, precisamos acreditar.  Acreditar num propósito para nossas vidas. Acreditar que devemos seguir adiante, pelos que estão ao nosso redor. Acreditar e enxergar que no meio do caos, temos bençãos. Acreditar no amor que nos une,  com laços infinitos. Acreditar.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

3 momentos , 3 lembranças

 

           Muito aconteceu e eu não escrevi. Não toquei piano e nem cantei. A insônia me  consumindo. Cansada . 

         Voltando da caminhada, enfileiradas flores amarelas em frente ao para-brisa . Parecia terem sido deixadas minuciosamente organizadas. Tais como os carrinhos do João Pedro brincando de garagem . 

            De repente percebi que estamos perto do fim do mês.  As crianças costumavam pedir doces na vizinhança. Sem se darem conta do significado, era dia de pedir doces. Pela brincadeira, por estarem juntos  e ganhar doces. Os amigos se reuniam e iam em grupos . Depois repartiam irmanamente, em casa. Uma farra deliciosa. 

               Hoje , entrei na loja Ciranda ( brinquedos e livros infantis). Durante toda infância, meus filhos frequentaram essa loja. Para comprar livros, presentes para os amigos e nas oficinas que eram feitas. Certa vez,  ficaram com uma bacia de lichia se deliciando na calçada. Sentiam-se em casa. Folheando os livros, andando pelos brinquedos e novidades que não acompanhei, bateu uma nostalgia. Vontade de entrar numa máquina do tempo e poder retornar.

              Do nada as lembranças invadem o pensamento. Surge a saudade. Ou porque ela nunca se foi , ou irá. Saudade, saudade, saudade …

             E como recebi de um amigo “ Que nesse dia possamos celebrar o encanto das pequenas travessuras e a beleza de sermos quem somos, com ou sem fantasia” . Com as nossos sonhos e nossas recordações. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Poema



Na minha solidão eu choro

10 anos

Sufocada 

Saudades do anjo que mora em mim


“ Quem me vê assim cantando 

Não sabe nada de mim

Dentro de mim mora um anjo 

Que me sufoca de amor.”

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Carta de 10 anos



          E chegou mais um dia 17. Não um dia 17 qualquer.  Mas o dia 17/09. 17/09/2025.  Dez anos da sua partida . 

          Os dias 17 nunca mais foram os mesmos. Nem nossas vidas. E nem nós. 

Algo não mudou: não tem um dia nesses mais de 3650 dias que eu não tenha pensado em você . 

         Tem ideia do tamanho da minha saudade ?

         “ Assim se passaram 10 anos

            Sem eu ver seu rosto 

            Sem olhar seus olhos …”

         Tive você neste plano, por um pouco mais do tempo que longe está dos meus olhos. Inacreditável.

          Dez anos é muito tempo na vida de uma criança. Quase o tempo de vida de alguns animais. 

          Para a história, não é nada. Para uma cidade, muito pouco . 

          Assim também parece. Você está tão presente que parece pouco, o tempo. E a saudade imensa faz o tempo parecer infinitamente longe .

          Dez anos também é um marco. Tal como os números redondos. Um décimo do século. 

          Nestes dez anos, os caminhos mudaram. Outras ruas e avenidas foram abertas. Tanto no sentido concreto,  como no abstrato. As pessoas, ao nosso redor, mudaram. Amizades que não temos mais no cotidiano. E laços que estreitaram . 

          A mesa posta para nove, aos domingos na casa da Bathian,  passou para seis lugares .

          As crianças cresceram. Seus amigos perto de se formarem. Você ganhou 2 priminhas e está perto de ganhar mais 2 primos (a família aumentando). E duas cachorrinhas aqui em casa (Meg deve estar saltitando com você).

          Sinto que está bem.  E sei, estou dez anos mais perto de encontrá-lo. Até lá, vamos vivendo por aqui.

          Sempre com saudades. E um amor infinito. E infindável. E eterno. 


                                Sua mãe 



Ps : a foto é de praia que tanto gostava 

           


                           

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Recuerdos



Mal sabia que tinha apenas uma semana na companhia do meu filho. 

Se soubesse a angústia seria maior ainda.

Ainda vivia dias pesarosos , mas com esperança.  Nunca, até o último instante deixei de acreditar. Que aconteceria um milagre e que ele voltaria para casa. Que a vida voltaria a ser como era.

Choque de realidade . Sob as paredes frias do hospital. O agito do dia a dia e a pseudo calmaria num feriado lá dentro. 

Ele parecia tão sereno . Reagia às cócegas que fazia no pé. Achava que era um sinal que acordaria do coma. Ledo engano. Como tantos outros sinais, para um coração de mãe que queria ver. 

Dias intensos. Recordações dolorosas.


( escrito em mais uma noite insone )

Fora as orquídeas floresciam do mesmo jeito 

11dias



10 anos atrás ..

Estava no hospital, na última e derradeira cirurgia. Bem cedo na manhã de hoje. As cirurgias da manhã terminaram. As cirurgias da tarde terminaram e nada.  As cirurgias da noite terminaram  e nada. Não havia mais ninguém na sala de espera. Apenas Mário e eu.  Foi a espera mais longa da minha vida. Foi apenas na madrugada que o médico saiu. Dizendo que ele estava em coma induzido e precisava descansar. Descansou. Para não mais voltar … 

E assim,  por 11 dias fui me despedindo de você. 


( escrito faz uns dias. Daqui a uma semana fará 10 anos da passagem do meu filho)

Os ipês estavam floridos…

sábado, 30 de agosto de 2025

Insônia

       


           São  4:40h. Agosto chegou e veio a insônia não desejada. Acordo do nada, no meio da madrugada. Já não ocorria, faz um tempo. E ela voltou. Sem pedir licença. Demoro voltar a dormir, despertando cansada pela manhã.      

         Sim,  tenho estado acelerada. A antologia do luto, em homenagem aos 10 anos da passagem do João Pedro, divulgação, live . Cabeça a mil. Muitas providências em relação ao escritório. Mas sei que não é apenas isso. 

            O que ficou dos dias vividos 10 anos atrás, tem me entristecido. O corpo, a mente e o coração possuem memórias. Revivo a tensão, a esperança, o medo da perda, a rotina do hospital. O “ não pensar”  ( embora pensando ) e a negação da possibilidade que meu filho poderia  partir. A fé em que tudo “ terminaria bem “ , pois se eu não acreditasse quem o faria ? 

         Talvez seja esse o porquê da insônia. Estou precisando do silêncio da madrugada. Da “ não agitação “ dos meus dias. De dizer sim ao luto que vem nesse período. De mergulhar, para pegar o impulso e emergir. E assim respirar. Sobreviver. E viver.

domingo, 24 de agosto de 2025

Medo

                 Com o luto, veio o medo. 

              Medo de perder o que já perdemos. Medo de perder o que ainda não perdemos. Medo da possibilidade da perda. Medo das diversas perdas. Medo de passar novamente pelo que passamos . 

              A percepção dos fatos mudou após a sua partida. Não somos mais quem éramos. Nem voltaremos a ser .

               22/08, exatamente 10 anos atrás, meu filho passou mal. E foi internado, dois dias depois,  para não voltar mais para essa casa. Ainda lembro todas as datas. 

Dia 23, ficou quietinho, deitadinho. A Meg , a companheira de 4 patas, também emudecida ao seu lado. Em vigilância. Algo  incomum,  para dois seres inquietos e tão cheios de vida . 

                Desde então,  a casa foi silenciando. Sem sons de videogames, músicas cantaroladas, brigas entre irmãos, latidos provocados de cachorrinha , chegadas barulhentas .

               Em contraste, um sentimento diferente passou a gritar em meu coração. Que nem sempre tenho a compreensão. Às vezes dor. Às vezes nostalgia. Às vezes saudade intensa . Às vezes pesar. Às vezes gratidão. Às vezes medo. Às vezes algo que nem sei nomear: que me faz sorrir e/ou chorar emocionada.

                 São as perdas do luto.  São os “ ganhos” do luto. Não pedimos por nenhum deles.  Mas vieram. Eu que lute. Sempre . 

domingo, 17 de agosto de 2025

Resiliência

          

          Tenho acompanhado meu pai,  com 90 anos, mudando do seu escritório. Desfazendo de muitos objetos, livros acumulados ao longo dos anos. Guardando o que possui memória afetiva. Imagino, só imagino, o que se passa em sua mente . Quantas lembranças de amigos que já se foram, familiares, acontecimentos que não mais ocorrem. 

           Faço um paralelo com o luto. É uma luta solitária, contra os fatos. 

           Desfazer dos objetos dos amados:  vestimentas, sapatos, livros, peças de estimação.

           Quantas lembranças tudo isso traz. Aquele dia em que estava com aquela roupa . Quando ganhou aquele presente que o fez sorrir. As fotos daquela viagem inesquecível. Das comemorações em família que não mais ocorrem da mesma maneira. Não é fácil, nem nunca será . 

           Resiliência é a palavra mágica. Contra tudo e todos os fatos. Fé e esperança para tê-la.


( daqui um mês fará 10 anos da partida do João Pedro)

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Curitiba ainda dói


                Curitiba foi a cidade das férias de infância.  De casa de vó, do encontro de tios e primos. A cidade da casa da Treze ( rua Treze de maio ) com o seu pé direito alto, escadarias pelos quais os corrimões viravam escorregadores, mesa posta quase que o dia inteiro. Dos natais na casa da madrinha, com a árvore de Natal imensa e a expectativa da meia noite para abrir os presentes. Da adolescência com os passeios com as amigas. E dos encontros com amigos do Rotaract, ou passagem para as conferências em outros estados.

            Muitas lembranças boas e ternas.

            No entanto, um dia tudo mudou.  

E foram os dias mais difíceis da minha vida que vivi em Curitiba. Dias em que me despedi de você. E cada dia foi uma despedida. Até o seu coração valente, parar de bater . 

           Nunca mais consegui ficar muito tempo em Curitiba. Rápidas passagens . 

Nem encontrar muitas pessoas. Tanto de épocas mais antigas, como as que me lembram os dias de hospital e a partida precoce dele.

           Ainda dói. Expõe minhas fragilidades, embora pareça forte. Ainda não chegou a época em que ficaram “apenas a saudade e os bons momentos”.  Não sei se chegará. Mesmo após quase 10 anos, Curitiba ainda dói .

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Minha voz, minha vida

         

            Estou com a voz debilitada. Tendo que economiza-la,  devido as apresentações de canto iminentes. Como é difícil o silêncio. Contradizendo toda a minha ascendência nipônica. Meio “ paraguaia”, como dizia um colega meu .

         João Pedro era assim. Ainda pequeno, com ele no mercado , alguém disparou : “ nossa normalmente menina que fala bastante.  Mas esse menino fala , hein…” 

Ele olhou pra mim meio pasmado  e emudeceu. Circunstancialmente. Depois voltou à eloquência.

         Quando partiu, parte de mim emudeceu. As palavras destinadas a você, desapareceram. E  fluiu a escrita. Nela, as respostas são minhas, não suas. Os diálogos solitários . 

        Ah, como é difícil ficar sem voz . Sem a sua voz.

        Para a minha, vou achando subterfúgios.

       “ Vida que não é menos minha que da canção “

        Permeando vida, canção e escrita 

Pois “ se o amor escraviza … é a única libertação “.

        E assim seguimos. Ou melhor, prosseguimos.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Milagre

            


           Não, eu não vi o meu milagre acontecer. Eu não via a sua cura acontecer, embora tenha pedido tanto. Outros pediram tanto, nem assim ocorreu. Minhas orações de mãe , “ não arrebentaram as portas do céu “ . 

          No entanto, como diz a música, que escutei na pregação de sábado, “ sou um milagre” estou aqui. Parecia impossível viver e sobreviver a morte de meu filho. Parecia não ter saída para prosseguir. Parecia ser também minha morte. “Mas sou um milagre , estou aqui . “ 

          Para as mães que perderam um filho , o fato de sobreviverem é um milagre. O fato de prosseguirem, um milagre maior ainda.  Somos um milagre. Graças a Deus .

sábado, 17 de maio de 2025

Sem replay

          


           Hoje acordei tão só .

          Lili e Diana escaparam e vieram me saudar. Não tinha abraços e beijos dos meus filhos a me acordar .

          Saudades de outros dias das mães . Das bolachinhas, dos bolos, mini sanduíches com patês  e chazinhos da escola. Dos presentes feitos por eles. Do sachê de sabonete com o carimbo dos dedinhos da Amanda de quase três anos. Do desenho meu, vestida de noiva, feito pelo João Pedro. 

           A vida passa muito rápida.

           O hoje, amanhã é passado.

           Aproveitar a companhia dos pais .

           Degustar os momentos com os filhos.

            Não conseguimos mais “ voltar a fita” , como antigamente fazíamos.  E mesmo com os equipamentos antigos, seria impossível. 

            A vida não tem Replay.


( escrito no último domingo, dia das mães. Por isso, certa melancolia).

domingo, 11 de maio de 2025

Nem tudo passa

          Dizem que tudo passa. 

          O ferro passa.

          O trem passa. 

          Até a uva passa .

          Mas não é bem assim.

          A saudade que eu sinto de você, não passa. A dor de não te-lo aqui, não passa. O vazio que deixou, também não. 

           A proximidade do dia das mães, faz -me mais sensível. E faz lembrar, você. Sua ausência presente. Sua presença ausente .

           Dia 5/5 foi o dia das mães enlutadas . Sempre antes do dia das mães. Cronologicamente fomos mães, não antes de sermos mães enlutadas. Hoje, somos mães enlutadas, antes de sermos mães . 

             Isso não passa. Nem passará. Quem sabe, passarinho. Tal como Mário Quintana. 

domingo, 20 de abril de 2025

Travessia



             Páscoa vem de passagem. No antigo testamento, a travessia dos judeus pelo mar.

             A sua travessia por aqui foi tão breve. Não 40 anos pelo deserto, mas 12 primaveras. 

            E quando você foi embora, realmente fez-se noite em meu viver. Embora outros disseram que forte eu era, tive que chorar. Sozinha, pois embora tenha família, amigos incríveis certos caminhos são únicos e solitários. Pois cada relação é única , cada luto é exclusivo. De maneira diferente para cada pessoa envolvida. Um percurso que só você faz e conhece cada pedra, cada flor . 

          E assim seguimos pela vida. Jamais esquecendo de você, pois está em mim. Mas a minha missão aqui não terminou. Sem sonhos e planos com você, infelizmente, mas prosseguindo. Pelos que ficam, pela sua memória e por mim. Fazendo com o meu braço, o meu viver . E com a proteção divina . 

         Que esse milagre da vida, se renove nessa Páscoa. Especialmente para nós, mães cujos filhos partiram antes. 



( Parafraseando Milton  Nascimento e Fernando Brandt)