quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Sem título


               Diante de certos fatos, sentimo-nos totalmente impotentes. 

                Lembrei-me de uma música do Vinicius e Toquinho, Um homem chamado Alfredo, cuja letra diz: 

“ o meu vizinho do lado, se matou de solidão.

… num velho papel de embrulho 

Deixou um bilhete seu

Dizendo que se matava 

De cansado de viver”.

               Não sei quando a letra foi escrita, mas como Vinicius faleceu em 1980, foi anterior a definição de transtorno depressivo, como considerado atualmente. 

                A depressão é considerada o “ mal do século XXI”.  Estima-se que em 2030, será a doença mais comum.

                Nunca imaginaríamos que ela poderia atingir alguém próximo, e com tamanha gravidade e de uma forma tão veloz.

                Alguém com quem tínhamos uma convivência semanal.  E que era tão cheia de vida, alegre, com tantos projetos, viagens marcadas . 

                Ainda estou em choque. E nessas horas, vem a pergunta: será que poderia ter feito algo para tentar evitar ? 

               Racionalmente sabemos que é uma doença. Mesmo assim, emocionalmente temos uma sensação diferente, por ser uma doença mental. Será que perguntaríamos o mesmo se fosse uma doença física ? 

              Perguntaríamos, talvez, se poderíamos, de alguma forma, estarmos  mais presentes. 

              Nada é por acaso. As pessoas entram em nossas vidas, por alguma razão. Fomos abençoados com tantos bons momentos de convivência. Caminhadas, cafés, viagens, fotos, conversas, risadas. Essas lembranças estão eternizadas.

             E, considerando a reflexão que esse momento traz, agradeço e peço a Deus para nos sustentar. Que Ele ilumine o caminho de quem partiu, e dos que aqui ficaram.   



terça-feira, 16 de julho de 2024

A foto do perfil

                


            Foi involuntário. Sem querer apertei algo, no carro,  e mudou a minha foto de perfil das redes sociais . Para algo completamente no-sense.

            Quis corrigir, rapidamente. E não pude resgatar a foto antiga, em que aparecia com o João Pedro . Essa foi minha foto de perfil por mais de oito anos . 

            Já me questionaram, o porquê da foto de perfil ser apenas com o João Pedro. Se a minha filha não sentia. Perguntei , ela disse que não . Pensei em alterar para uma foto com os dois, mas fui deixando.

           E hoje , sem querer, aconteceu. O inconsciente trabalhando? Talvez. O universo “ mandando recados” ? Quem sabe..

           Acho que não me sentiria bem simplesmente alterando a foto . São detalhes pequenos, no entanto parecem pesar . Culpa e maternidade, penso que muitas vezes seguem juntas. Sentimo-nos responsáveis se algo não corre bem com os nossos filhos. 

           Sinto como se tivesse que dizer: Filho, mudar a foto não significa esquecimento. Você está sempre em mim. A foto de proteção de tela é sua. Eu a vejo sempre e constantemente. Pertence a mim. Assim como todos os sentimentos de amor e ternura que trago comigo, por você e por sua irmã . Esses estão enraizados , no mais profundo âmago. Entrelaçando o meu sentir e o meu ser . Sem saber onde começa ou termina, um ou outro. 

          E assim seguimos : eu por aqui e você aí . Siga na luz, meu filho .

quarta-feira, 26 de junho de 2024

A dor

 “ O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a sentir que é dor, a dor que deveras sente .” ( Fernando Pessoa)

           Para alguns , ou melhor algumas , é o contrário. Fingimos que não sentimos a dor, que deveras sentimos .  Ou para, por ora , prosseguirmos. 

                  Talvez porque os sentimentos são reversos. Entregar um filho “ é o revés” de um parto.  Partir antes dele é reversa a natureza , a dita “ normalidade” .

                 Como alguém disse,  e repito mais uma vez, “ morte de filho não se supera “.  Seguimos adiante, ressignificamos a vida.

                No entanto, às vezes precisamos deixar a dor vir. Para podermos entender e aprender a conviver com ela . Para que ela se torne saudade e boa lembrança, mesmo estando guardada  e aparecendo. Mesmo parecendo  impossível.

              Não sei se o tempo é o melhor remédio, mas ajuda a amenizar. Como uma ferida aberta que cicatriza. 

               Para que nos tornemos poetisas de nossas vidas. Transformando dor,  em poesia .



Para a Lu:  Hoje sempre será o aniversário do Francisco. O dia que ele veio a esse mundo nos agraciar com a sua presença 


( escrito no dia do aniversário do Francisco)


domingo, 16 de junho de 2024

A marca indelével

                   Sempre tive uma certa tendência à melancolia . Gosto de músicas de “ rasgação de pulsos” , dramáticas mesmo. Apaixonei pelas poesias e músicas do Vinicius de Moraes,  na adolescência. Embora converse muito, aprecio muito os momentos de “ meus livros, meus discos e nada mais “. 

                    No entanto,  nada disso se refere a marca indelével que deixou em mim. Ou melhor, que a sua partida deixou em mim. E que hoje, eu reconheço nas mães cujos filhos partiram.    

                  Podemos sorrir , prosseguir a vida , mas a marca está lá. Podemos ter momentos alegres, amamos os outros filhos,  outras pessoas , mas a marca está lá . 

                  Podemos rezar, consolar o próximo, ajudá-lo, mas a marca continua lá . 

                Temos a consciência da existência dela. Do quanto ela se incorporou em nós.  E temos saudades de quando ela não existia . 

                 A marca que não se consegue apagar , extinguir, destruir. A marca  que  o tempo não corrói, permanente.

                  A marca que faz  uma mãe que perdeu um filho dizer para outra que também  perdeu: “ você sabe como é”.  Sim, só nós sabemos . 

domingo, 2 de junho de 2024

Fica aqui comigo

               


                 -  Mãe, fica aqui comigo…

                 Eu ia me afastar um pouco,  para atender o celular insistente. E assim, você falou sonolento. 

                  Voltei e continuei a segurar as suas mãos. Lembrando de como costumava  fazer quando era menorzinho. Segurava  e beijava suas mãozinhas fofinhas. Até você escapar e me provocar: 

                  - Você não me pega. 

                  Corria feito um foguete, mas conseguia alcançá-lo  e fazer cócegas.  E você gargalhava. 

                 -  Para mãe , para. 

                 -  Pede água. 

                  - Não  ( e mais risadas ). 

                   Depois de um algum tempo resistindo e tentando se desvencilhar…

                  - Água mãe. Água…

                  Afastava-se rindo muito. Até a próxima provocação.

                  - Você não me pega … 

                 Ainda lembro da risada, do som da sua voz, da pele macia, do cheiro. 

                 Tinha tanto medo de esquecer. Acho que não desaparecerá mais. São ecos que permanecem.

                  Agora, sou eu que muitas vezes tive vontade de dizer :

                  -  Filho, fica aqui comigo. 

                  

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Carta para o Nando ( e o tio Massa)

               


               A festa foi linda. Fiquei muito emocionada ao ver a moça linda que a *Amanda se tornou. 

              Amei participar desse momento tão especial.

              Não pude deixar de lembrar do seu pai. O quanto ele teria “ curtido” as netas . Ele que foi um tio e tanto, imagino como seria com as netas. Dengaria até. Levaria balas deliciosas todos dias. Compraria as suas revistas prediletas.  Faria todas as vontades e mais um pouco. E teria muito orgulho delas, como sempre teve de você .

              Lembro da felicidade dele no dia da sua formatura. Ele sempre foi uma das pessoas mais generosas que conheci. De um coração imenso. 

             De onde estiver, deve estar rindo, como rimos,  das aventuras e desventuras da família trapo.

              E também sorrindo por todas as memórias lindas que criou em nós. Que foram eternizadas em nossos corações.

              E talvez se reunindo com sua mãe, tio Chico, tia Iacy, Bathan, Dithan, tia Junko, tio Pedro e o João Pedro, numa grande festa de família.

              Pena que lá não deve ter balas para ele dar para o João Pedro. Acho que ele teria adorado .


*Amanda  ( filha do Nando e da Fabi)

Dia 14/05 tio Massa teria feito 80 anos . Partiu precocemente, sem conhecer as netas . Ele foi  aquele tiozão que os sobrinhos amavam…

sábado, 11 de maio de 2024

Mãe de anjo


               Dia das mães. Quantos sentimentos contraditórios surgem nesse dia….

              Gratidão por ter sido escolhida como mãe dos meus filhos. Lembranças de tempos passados mais felizes. Coração apertado por não ter meus filhos aqui perto. Saudade, saudade, saudade…

               E pensamentos empáticos : pelas mães que estão passando pela tragédia no Rio Grande do Sul e perderam seus filhos. Pelas mães como a Jaque, a Claudia , a Silvia e a Lu que passarão o primeiro dia das mães sem a presença física de seus filhos amados. Nunca foi fácil e nem será. Mas o primeiro ano é o mais difícil. A ferida está aberta , não cicatrizou. E numa data emblemática assim … dói muito. Torna-se mais presente essa ausência. Torna-se mais evidente o pedaço que falta. 

                Como cita um texto bem conhecido que recebi. Perguntaram a uma mãe qual filho ela mais amava. E ela respondeu: o doente até que sare, o ausente até que volte  e assim por diante. Acrescido de : o que já me deixou, até que eu o reencontre.

               E assim seguimos : amando os que estão por aqui e o que já nos deixou, até o dia do reencontro.

               Que Deus abençoe todas as mães  nesse dia. Especialmente as mães de anjo.